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Chandrasekhara Venkata Raman

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C. V. Raman
Raman em 1930
Nome completoChandrasekhara Venkata Raman
Conhecido(a) porespalhamento Raman
Nascimento
Tiruchirappalli, Presidência de Madras, Índia Britânica
Morte
21 de novembro de 1970 (82 anos)

Bangalore, Estado de Mysore, Índia
ParentescoFamília Chandrasekhar
CônjugeLokasundari Ammal (1907)
Filho(a)(s)2, incluindo Venkatraman Radhakrishnan
EducaçãoPresidency College
formado em 1904 e 1907
Prêmios
Carreira científica
Orientador(es)(as)Rhishard Llewellyn Jones
Orientado(a)(s)
Instituições
Campo(s)Física
Assinatura

Chandrasekhara Venkata Raman (pronúncia em inglês: /ˈrɑːmən/;[2] IAST: Candraśēkhara Veṅkaṭarāmaṉ; 7 de novembro de 1888 – 21 de novembro de 1970) foi um físico indiano[3] que trabalhou com o espalhamento da luz.[4] Com um espectrógrafo que desenvolveu, Raman e seu aluno K. S. Krishnan descobriram que, quando a luz atravessa um material transparente, a luz desviada muda de comprimento de onda. O fenômeno, um tipo até então desconhecido de espalhamento da luz que eles chamaram de "espalhamento modificado", recebeu depois os nomes de efeito Raman e espalhamento Raman. Em 1930, Raman recebeu o Nobel de Física "por seu trabalho sobre o espalhamento da luz e pela descoberta do efeito que leva seu nome"[5] e tornou-se o primeiro asiático e a primeira pessoa não branca a receber um Nobel de Física.[6]

Nascido no atual estado indiano de Tamil Nadu, Raman foi uma criança precoce. Concluiu os ensinos secundário e secundário superior na St Aloysius' Anglo-Indian High School aos 11 e 13 anos, respectivamente. Aos 16 anos, ficou em primeiro lugar no exame de bacharelado da Universidade de Madras, com honras em física pelo Presidency College. Seu primeiro artigo científico, sobre difração da luz, foi publicado em 1906, quando ainda era estudante de pós-graduação. No ano seguinte, obteve o mestrado. Aos 19 anos, ingressou no Indian Finance Service em Calcutá como assistente do contador-geral. Na cidade, conheceu a Indian Association for the Cultivation of Science (IACS), o primeiro instituto de pesquisa da Índia, onde pôde fazer pesquisas independentes e desenvolveu parte de seus trabalhos em acústica e óptica.

Em 1917, Raman foi nomeado o primeiro professor Palit de Física por Ashutosh Mukherjee no Rajabazar Science College, da Universidade de Calcutá. Em sua primeira viagem à Europa, a visão do mar Mediterrâneo levou-o a questionar a explicação então aceita para a cor azul do mar, atribuída à luz do céu refletida após o espalhamento de Rayleigh. Em 1926, fundou o Indian Journal of Physics. Mudou-se para Bangalore em 1933 e tornou-se o primeiro diretor indiano do Instituto Indiano de Ciências. No mesmo ano, fundou a Indian Academy of Sciences. Em 1948, criou o Raman Research Institute, onde trabalhou até os últimos dias de vida. Era tio do também laureado com o Nobel Subrahmanyan Chandrasekhar.

O efeito Raman foi descoberto em 28 de fevereiro de 1928. A data é comemorada anualmente pelo governo da Índia como o Dia Nacional da Ciência.

Primeiros anos e formação

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Chandrasekhara Venkata Raman nasceu em 7 de novembro de 1888 em Tiruchirappalli, na Índia.[7][8] Seus pais eram R. Chandrasekhar Iyer e Parvathi Ammal.[9] Era o segundo dos oito filhos do casal.[10] O pai lecionava em uma escola secundária local e recebia um salário modesto. Raman recordou: "Nasci com uma colher de cobre na boca. Quando nasci, meu pai recebia o magnífico salário de dez rúpias por mês!"[11] Em 1892, a família mudou-se para Visakhapatnam, em Andhra Pradesh, porque seu pai foi nomeado professor de física no Mrs A. V. Narasimha Rao College.[12]

Raman estudou na St Aloysius' Anglo-Indian High School, em Visakhapatnam.[13] Passou no exame de matrícula aos 11 anos e, aos 13, no First Examination in Arts, equivalente a um curso pré-universitário, recebendo uma bolsa de estudos.[10][14] Ficou em primeiro lugar nos dois exames do conselho escolar de Andhra Pradesh.[15]

Em 1902, Raman ingressou no Presidency College, em Madras, atual Chennai, para onde seu pai havia sido transferido para ensinar matemática e física.[16] Em 1904, obteve um B.A. pela Universidade de Madras, ficando em primeiro lugar e recebendo medalhas de ouro em física e inglês.[15] Aos 18 anos, ainda estudante, publicou seu primeiro artigo científico, "Unsymmetrical diffraction bands due to a rectangular aperture", na revista britânica Philosophical Magazine, em 1906.[17] Em 1907, concluiu um M.A. pela mesma universidade com a distinção máxima.[5][18] Seu segundo artigo na mesma revista naquele ano tratava da tensão superficial dos líquidos.[19] Foi publicado junto de um artigo de Lord Rayleigh sobre a sensibilidade do ouvido ao som.[20] A partir daí, Rayleigh passou a se corresponder com Raman, tratando-o, por cortesia, como "Professor".[15]

Ciente da capacidade de Raman, seu professor de física Rhishard Llewellyn Jones insistiu para que continuasse a pesquisa na Inglaterra. Jones providenciou um exame médico com o coronel Sir Gerald Giffard.[21] Raman costumava ter saúde frágil e era considerado fisicamente "fraco".[22] O exame concluiu que ele não suportaria o clima rigoroso da Inglaterra.[12] Raman recordaria mais tarde: "[Giffard] examinou-me e certificou que eu morreria de tuberculose (...) se fosse para a Inglaterra".[23]

O irmão mais velho de Raman, C. Subrahmanya Ayyar, havia ingressado no Indian Finance Service, serviço público do governo indiano que corresponde ao atual Indian Audit and Accounts Service.[24] Raman seguiu o mesmo caminho e ficou em primeiro lugar no exame de admissão do serviço em fevereiro de 1907.[25] Em junho daquele ano, foi designado assistente do contador-geral em Calcutá.[12]

Raman ficou profundamente interessado na Indian Association for the Cultivation of Science (IACS), fundada em Calcutá em 1876 e primeiro instituto de pesquisa da Índia.[23] Logo fez amizade com Asutosh Dey, que se tornaria seu colaborador por toda a vida, Amrita Lal Sircar, filho do fundador Mahendralal Sarkar e então secretário da IACS, e Ashutosh Mukherjee, membro da direção da associação e vice-chanceler da Universidade de Calcutá. Com o apoio deles, recebeu permissão para fazer pesquisas na IACS em seu tempo livre, até mesmo em "horários muito incomuns", como recordaria depois.[15] O instituto ainda não possuía pesquisadores regulares[26] nem havia publicado artigos científicos.[12] O artigo de Raman "Newton's rings in polarised light", publicado na Nature em 1907, foi o primeiro trabalho proveniente da instituição.[27] O trabalho levou a IACS a criar, em 1909, o Bulletin of Indian Association for the Cultivation of Science, do qual Raman foi o principal colaborador.[15]

Em 1909, Raman foi transferido para Rangum, na Birmânia Britânica, atual Mianmar, onde assumiu o cargo de funcionário da moeda. Poucos meses depois, precisou voltar a Madras devido à doença e morte de seu pai. O falecimento e os rituais funerários fizeram com que permanecesse ali pelo resto do ano.[28] Pouco depois de retomar o cargo em Rangum, foi transferido para Nagpur, em Maharashtra, em 1910.[29] Antes de completar um ano em Nagpur, foi promovido a contador-geral em 1911 e novamente enviado para Calcutá.[28]

A partir de 1915, a Universidade de Calcutá passou a encaminhar pesquisadores para trabalhar sob a orientação de Raman na IACS. Sudhangsu Kumar Banerji, mais tarde diretor-geral de observatórios do Departamento Meteorológico da Índia, foi seu primeiro aluno de doutorado.[30] No ano seguinte, outras universidades passaram a fazer o mesmo, entre elas as universidades de Allahabad, Rangum e Madras, o Queen's College de Indore, o Institute of Science de Nagpur e o Krishnath College. Em 1919, Raman já havia orientado mais de uma dezena de estudantes.[31] Após a morte de Sircar em 1919, Raman recebeu dois cargos honorários na IACS, professor honorário e secretário honorário.[26] Ele chamaria esse período de "era de ouro" de sua vida.[32]

Raman foi escolhido pela Universidade de Calcutá para ocupar a cátedra Palit de Física, criada em homenagem ao benfeitor Sir Taraknath Palit em 1913. O senado da universidade fez a nomeação em 30 de janeiro de 1914, como consta na ata da reunião:

"As seguintes nomeações para as cátedras Palit foram feitas na reunião do Senado de 30 de janeiro de 1914: Dr. P. C. Ray e Sr. C. V. Raman, MA... A nomeação de cada professor será permanente. O professor deixará o cargo ao completar sessenta anos de idade."[15]

Antes de 1914, Ashutosh Mukherjee havia convidado Jagadish Chandra Bose para o cargo, mas Bose recusou.[33] Raman, segunda opção, tornou-se o primeiro professor Palit de Física, embora sua posse tenha sido adiada pela Primeira Guerra Mundial. Só em 1917, ao ingressar no Rajabazar Science College, campus criado pela Universidade de Calcutá em 1914, passou a exercer plenamente a função de professor.[15] Deixou com relutância o serviço público depois de uma década. A decisão foi chamada de "sacrifício supremo",[26] pois o salário de professor era aproximadamente metade do que recebia. As condições do cargo, porém, favoreciam suas pesquisas. O relatório de sua entrada na universidade dizia:

"O Sr. C. V. Raman aceita a cátedra Sir T. N. Palit sob a condição de não ser obrigado a sair da Índia... Registra-se que o Sr. C. V. Raman assumiu o cargo de professor Palit de Física em 2.7.17... O Sr. Raman informou que não deverá ser obrigado a exercer atividades de ensino nas turmas de MA e MSc em prejuízo de suas próprias pesquisas ou da assistência a estudantes avançados em suas pesquisas."[30]

A nomeação de Raman encontrou forte oposição de alguns membros do senado da Universidade de Calcutá, em especial estrangeiros, porque ele não possuía doutorado e nunca havia estudado no exterior. Em resposta, Ashutosh Mukherjee providenciou um doutorado honorário em ciências, conferido pela universidade em 1921. No mesmo ano, Raman visitou Oxford para dar uma palestra no Congresso das Universidades do Império Britânico.[34] Seus anfitriões incluíam os laureados com o Nobel J. J. Thomson e Ernest Rutherford.[35] Quando Raman foi eleito membro da Royal Society em 1924, Mukherjee perguntou-lhe sobre seus planos para o futuro. Raman respondeu: "O Prêmio Nobel, é claro".[26] Em 1926, fundou o Indian Journal of Physics e tornou-se seu primeiro editor.[36] O segundo volume publicou seu artigo "A new radiation", no qual apresentou a descoberta do efeito Raman.[37][38]

Raman foi sucedido por Debendra Mohan Bose na cátedra Palit em 1932. Após ser nomeado diretor do Instituto Indiano de Ciências em Bangalore, deixou Calcutá em 1933.[39] O marajá Krishnaraja Wadiyar IV, Jamsetji Tata e o nizam de Hyderabad, Sir Mir Osman Ali Khan, haviam doado terras e recursos para o instituto. O vice-rei da Índia, Lord Minto, aprovou sua criação em 1909, e o governo britânico nomeou Morris Travers como primeiro diretor.[40] Raman tornou-se o quarto diretor e o primeiro indiano a ocupar o cargo. Durante sua gestão, recrutou G. N. Ramachandran, que mais tarde se dedicou à cristalografia de raios X. Em 1934, fundou a Indian Academy of Sciences e iniciou a publicação de seu periódico, Proceedings of the Indian Academy of Sciences, mais tarde dividido em Proceedings - Mathematical Sciences, Journal of Chemical Sciences e Journal of Earth System Science.[35] Por volta da mesma época foi criada a Calcutta Physical Society, cuja ideia Raman havia apresentado já em 1917.[15]

Com seu antigo aluno Panchapakesa Krishnamurti, Raman criou em 1943 a Travancore Chemical and Manufacturing Co. Ltd.[41] Rebatizada TCM Limited em 1996, a empresa esteve entre as primeiras fabricantes indianas de produtos químicos orgânicos e inorgânicos.[42] Em 1947, o novo governo da Índia independente nomeou Raman o primeiro Professor Nacional.[43]

Raman aposentou-se do Instituto Indiano de Ciências em 1948 e criou o Raman Research Institute em Bangalore no ano seguinte. Foi seu diretor e permaneceu ativo no instituto até morrer, em 1970.[43]

Trabalhos científicos

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Diagrama de níveis de energia que mostra os estados envolvidos no sinal Raman
Raman na cerimônia do Prêmio Nobel de 1930 com outros laureados. Da esquerda para a direita: C. V. Raman, física, Hans Fischer, química, Karl Landsteiner, medicina, e Sinclair Lewis, literatura

Som musical

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Um dos interesses de Raman era a base física dos sons musicais. Inspirou-se em The Sensations of Tone, de Hermann von Helmholtz, livro que conheceu quando ingressou na IACS.[25] Publicou muitos trabalhos sobre o tema entre 1916 e 1921. Desenvolveu uma teoria da vibração transversal dos instrumentos de cordas friccionadas a partir do princípio da superposição das velocidades. Um de seus primeiros estudos tratou do som de lobo em violinos e violoncelos.[44][45] Estudou a acústica do violino e de instrumentos semelhantes, entre eles instrumentos de corda indianos,[46][47] e o som produzido por respingos de água.[48] Fez ainda o que chamou de "experimentos com violinos tocados mecanicamente".[49]

Raman também estudou as características dos tambores indianos.[50] Suas análises da natureza harmônica dos sons da tabla e do mridangam foram os primeiros estudos científicos das percussões indianas.[50] Escreveu uma análise crítica das vibrações das cordas do piano, assunto tratado pela chamada teoria de Kaufmann, primeira descrição científica da vibração de cordas musicais, proposta pelo físico alemão Walter Kaufmann em 1895.[51][52] Durante uma breve visita à Inglaterra em 1921, estudou a propagação do som na Galeria dos Sussurros da cúpula da Catedral de São Paulo, em Londres, conhecida por seus efeitos acústicos incomuns.[53][54] O trabalho de Raman em acústica antecedeu, nos métodos experimentais e nas ideias empregadas, seus estudos posteriores de óptica e mecânica quântica.[25]

Cor azul do mar

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Ao ampliar suas pesquisas em óptica, Raman começou a estudar o espalhamento da luz em 1919.[55] Sua primeira descoberta de destaque sobre a física da luz envolveu a cor azul da água do mar. Em setembro de 1921, durante a viagem de volta da Inglaterra a bordo do S. S. Narkunda, observou a cor do mar Mediterrâneo. Usando equipamentos ópticos simples, um espectroscópio de bolso e um prisma de Nicol, estudou a água do mar.[56] Entre as hipóteses propostas para explicar a cor do mar,[57][58] uma das mais aceitas era a explicação dada por Lord Rayleigh em 1910: "O muito admirado azul-escuro do mar profundo nada tem a ver com a cor da água, é simplesmente o azul do céu visto por reflexão".[59] Rayleigh havia explicado corretamente o azul do céu pelo fenômeno que recebeu o nome de espalhamento de Rayleigh,[60] o espalhamento e a refração da luz por partículas na atmosfera.[61] Sua explicação para a cor azul da água também era aceita. Raman observou a água através de um prisma de Nicol para eliminar a influência da luz solar refletida pela superfície. Viu que o mar parecia ainda mais azul, em contradição com a explicação de Rayleigh.[62]

Assim que o S. S. Narkunda atracou no porto de Bombaim, atual Mumbai, Raman concluiu o artigo "The colour of the sea", publicado na edição de novembro de 1921 da Nature. Escreveu que a explicação de Rayleigh podia ser questionada com "uma forma simples de observação", o uso de um prisma de Nicol.[62] Raman raciocinou:

"Olhando para dentro da água com um Nicol diante do olho para eliminar as reflexões da superfície, podia-se ver o trajeto dos raios solares entrando na água e, pela perspectiva, parecendo convergir para um ponto a uma profundidade considerável. A questão é: o que difrata a luz e torna visível sua passagem? Uma possibilidade que deve ser considerada é a de que as partículas difratoras possam ser, pelo menos em parte, as próprias moléculas de água."[15]

Página de rosto de Molecular Diffraction of Light, de Raman, de 1922
Página de rosto de Molecular Diffraction of Light, de Raman, de 1922

Ao chegar a Calcutá, pediu a seu aluno K. R. Ramanathan, da Universidade de Rangum, que continuasse a pesquisa na IACS.[63] No início de 1922, Raman já havia chegado a uma conclusão, publicada no Proceedings of the Royal Society of London:

"Propõe-se neste artigo defender uma visão inteiramente diferente, a de que nesse fenômeno, assim como no caso paralelo da cor do céu, a difração molecular determina a luminosidade observada e, em grande medida, também sua cor. Como preliminar necessária à discussão, serão apresentados um cálculo teórico e observações experimentais da intensidade do espalhamento molecular na água."[64]

Ramanathan publicou resultados experimentais detalhados em 1923.[65] Seu estudo posterior da baía de Bengala, em 1924, forneceu evidências adicionais.[66] Sabe-se que a cor intrínseca da água decorre principalmente da absorção seletiva dos comprimentos de onda maiores nas regiões vermelha e laranja do espectro eletromagnético, causada pelos sobretons dos modos de estiramento O-H, oxigênio e hidrogênio, que absorvem infravermelho.[67]

Efeito Raman

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Antecedentes

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A segunda descoberta de Raman sobre o espalhamento da luz foi um novo tipo de radiação, fenômeno que recebeu seu nome como efeito Raman.[68] Depois de estudar o espalhamento responsável pela cor azul da água, passou a investigar o princípio por trás do fenômeno. Seus experimentos de 1923 mostraram a possível formação de outros raios luminosos além do raio incidente quando a luz solar, filtrada por vidro violeta, atravessava certos líquidos e sólidos. Ramanathan acreditou tratar-se de um "vestígio de fluorescência".[15] Em 1925, K. S. Krishnan, então novo pesquisador associado, apresentou a base teórica para a existência de uma linha adicional de espalhamento além do espalhamento elástico polarizado comum quando a luz atravessava um líquido.[69] Chamou o fenômeno de "fluorescência fraca".[70] As tentativas teóricas de explicar o fenômeno não tiveram sucesso nos dois anos seguintes.[71]

O principal estímulo veio da descoberta do efeito Compton. Arthur Holly Compton, da Universidade Washington em St. Louis, havia encontrado em 1923 evidências de que as ondas eletromagnéticas também podiam ser tratadas como partículas.[72] Em 1927, o fenômeno era amplamente aceito entre os físicos, incluindo Raman.[73] Quando soube, em dezembro de 1927, que Compton receberia o Nobel de Física, Raman disse entusiasmado a Krishnan:

"Excelentes notícias... muito boas mesmo. Mas veja, Krishnan. Se isso é verdade para os raios X, deve ser verdade também para a luz. Sempre pensei assim. Deve haver um análogo óptico do efeito Compton. Precisamos procurá-lo e estamos no caminho certo. Ele deve e será encontrado. O Prêmio Nobel precisa ser conquistado."[74]

A inspiração tinha uma origem anterior. Compton recordou posteriormente que "provavelmente foi o debate de Toronto que o levou a descobrir o efeito Raman dois anos depois".[25] O debate ocorreu durante uma reunião da British Association for the Advancement of Science em Toronto, em 1924, sobre a existência do quantum de luz. Compton apresentou seus resultados experimentais, enquanto William Duane, da Universidade Harvard, defendeu, com seus próprios resultados, a natureza ondulatória da luz.[23] Raman tomou o partido de Duane e disse: "Compton, você é um excelente debatedor, mas a verdade não está com você".[25]

Experimentos de espalhamento

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Um dos primeiros espectros Raman do benzeno, publicado por Raman e Krishnan[75]

Krishnan iniciou os experimentos no começo de janeiro de 1928.[63] Em 7 de janeiro, descobriu que qualquer líquido puro usado produzia fluorescência polarizada no espectro visível. Ao observar o resultado, Raman se perguntou por que não havia percebido o fenômeno nos anos anteriores.[63] Naquela noite, ele e Krishnan deram-lhe o nome de "espalhamento modificado", em referência ao efeito Compton como espalhamento não modificado. Em 16 de fevereiro, enviaram à Nature o manuscrito "A new type of secondary radiation", publicado em 31 de março.[76]

Em 28 de fevereiro de 1928, obtiveram espectros do espalhamento modificado separados da luz incidente. Como era difícil medir os comprimentos de onda, até então dependiam da observação visual da cor produzida pela luz solar através de um prisma. Raman havia desenvolvido um tipo de espectrógrafo para detectar e medir ondas eletromagnéticas.[35][77] Mais tarde, comentou sobre o aparelho: "Quando recebi meu Prêmio Nobel, havia gasto pouco mais de 200 rúpias no equipamento",[78] embora o gasto total de todo o experimento tenha sido maior.[79] A partir desse momento, puderam usar luz monocromática de uma lâmpada de arco de mercúrio, fazê-la atravessar um material transparente e direcioná-la a um espectrógrafo para registrar o espectro. As linhas de espalhamento podiam então ser medidas e fotografadas.[80][81]

No mesmo dia, Raman anunciou a descoberta à imprensa. A Associated Press of India noticiou-a no dia seguinte, 29 de fevereiro, com o título "New theory of radiation: Prof. Raman's Discovery".[82] O texto dizia:

"O professor C. V. Raman, FRS, da Universidade de Calcutá, fez uma descoberta que promete ter relevância fundamental para a física... O novo fenômeno apresenta características ainda mais surpreendentes do que as descobertas pelo professor Compton com os raios X. A principal característica observada é que, quando a matéria é excitada por luz de uma cor, os átomos nela contidos emitem luz de duas cores, uma das quais é diferente da cor excitadora e situa-se mais abaixo no espectro. O surpreendente é que a cor alterada é totalmente independente da natureza da substância utilizada."[68]

A notícia foi reproduzida pelo The Statesman em 1.º de março sob o título "Scattering of Light by Atoms – New Phenomenon – Calcutta Professor's Discovery".[83] Em 8 de março, Raman enviou à Nature um relatório de três parágrafos, publicado em 21 de abril.[84] Os dados completos foram enviados à mesma revista em 22 de março e publicados em 5 de maio.[85] Raman apresentou uma exposição formal e detalhada, "A new radiation", na reunião da South Indian Science Association em Bangalore, em 16 de março. A palestra foi publicada no Indian Journal of Physics em 31 de março.[37] Mil separatas do artigo foram enviadas naquele dia a cientistas de diferentes países.[38]

Recepção e consequências

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Alguns físicos, sobretudo franceses e alemães, inicialmente duvidaram da descoberta. Georg Joos, da Universidade de Jena, perguntou a Arnold Sommerfeld, da Universidade de Munique: "Você acha que o trabalho de Raman sobre o efeito Compton óptico em líquidos é confiável? (...) A nitidez das linhas espalhadas em líquidos me parece duvidosa". Sommerfeld tentou reproduzir o experimento, mas não conseguiu.[86] Em 20 de junho de 1928, Peter Pringsheim, da Universidade Friedrich Wilhelm de Berlim, conseguiu reproduzir os resultados. Foi o primeiro a usar as expressões Ramaneffekt e Linien des Ramaneffekts em artigos publicados nos meses seguintes.[87][88] As formas inglesas "Raman effect" e "Raman lines" começaram a ser usadas logo depois.[89][23][90]

Além de constituir um fenômeno novo, o efeito Raman foi uma das primeiras evidências da natureza quântica da luz. Robert W. Wood, da Universidade Johns Hopkins, foi o primeiro norte-americano a confirmar o efeito Raman, no início de 1929.[91] Depois de uma série de verificações experimentais, comentou: "Parece-me que essa belíssima descoberta, resultado do longo e paciente estudo de Raman sobre o espalhamento da luz, é uma das provas mais convincentes da teoria quântica".[92][35] A espectroscopia Raman baseou-se nesse fenômeno. Ernest Rutherford, presidente da Royal Society, ao entregar a Medalha Hughes a Raman em 1930, chamou a descoberta de "uma das três ou quatro melhores descobertas da física experimental da última década".[74]

Raman acreditava que receberia o Nobel de Física e ficou decepcionado quando o prêmio de 1928 foi dado a Owen Richardson e o de 1929 a Louis de Broglie. Estava tão confiante em 1930 que reservou passagens em julho, embora o resultado só fosse anunciado em novembro. Examinava o jornal todos os dias à procura do anúncio e o jogava de lado quando não encontrava a notícia.[93] Recebeu o prêmio naquele ano.[94]

Trabalhos posteriores

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Raman manteve relação com a Universidade Hindu de Banaras, em Varanasi. Participou da cerimônia de fundação da universidade[95] e proferiu palestras sobre matemática e "Some new paths in physics" numa série realizada entre 5 e 8 de fevereiro de 1916.[96] Também ocupou o cargo de professor visitante permanente.[97]

Com Suri Bhagavantam, determinou o spin dos fótons em 1932, fornecendo outra confirmação da natureza quântica da luz.[98][90] Com outro aluno, Nagendra Nath, apresentou a explicação teórica correta do efeito acusto-óptico, o espalhamento da luz por ondas sonoras, em uma série de artigos que resultou na teoria Raman-Nath.[99] Moduladores e sistemas de comutação baseados no efeito passaram a ser utilizados em componentes de comunicação óptica baseados em laser.[100]

Outras pesquisas incluíram estudos experimentais e teóricos da difração da luz por ondas acústicas de frequências ultrassônicas e hipersônicas,[101][102] e os efeitos de raios X sobre vibrações infravermelhas em cristais expostos à luz comum, publicados entre 1935 e 1942.[103][104]

Em 1948, ao estudar o comportamento espectroscópico de cristais, abordou de outra forma os problemas fundamentais da dinâmica cristalina.[105][106] Entre 1944 e 1968, trabalhou sobre a estrutura e as propriedades do diamante,[107][108] e, no início da década de 1950, sobre a estrutura e o comportamento óptico de materiais iridescentes, entre eles labradorita, feldspato perolado,[109][110] ágata,[111] quartzo,[112] opala[113] e pérolas.[114] Também se interessou pela óptica dos coloides e pela anisotropia elétrica e magnética.[115][116] Na década de 1960, suas pesquisas finais envolveram propriedades biológicas, entre elas as cores das flores e a fisiologia da visão.[117][118][119]

Vida pessoal

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Raman casou-se em 1907 com Lokasundari Ammal, filha de S. Krishnaswami Iyer, superintendente da alfândega marítima de Madras.[24] A data do casamento costuma ser dada como 6 de maio,[120][121] mas a sobrinha-neta e biógrafa de Raman, Uma Parameswaran,[122] apontou 2 de junho de 1907 como a data correta.[123] Foi um casamento arranjado pelo próprio casal, e Lokasundari tinha 13 anos.[124][43][125] As fontes divergem sobre a idade dela. Seu ano de nascimento também é indicado como 1892,[23][121] o que a faria ter cerca de 15 anos. Parameswaran afirmou que tinha 13,[126] idade compatível com seu obituário no Current Science, que informava 86 anos quando morreu, em 22 de maio de 1980.[127] Lokasundari contou depois, em tom de brincadeira, que o casamento teve menos relação com sua habilidade musical, ela tocava veena quando se conheceram, do que com "o adicional que o Departamento de Finanças pagava aos funcionários casados".[43] O adicional era de 150 rúpias.[24] Pouco depois de se mudarem para Calcutá em 1907, o casal foi acusado de se converter ao cristianismo porque frequentava a Igreja de São João. Lokasundari gostava da música da igreja, enquanto Raman se interessava por sua acústica.[43][128]

O casal teve dois filhos, Chandrasekhar Raman e Venkatraman Radhakrishnan, radioastrônomo. Raman rompeu mais tarde com o filho mais velho por divergências ideológicas.[129] Subrahmanyan Chandrasekhar, filho de seu irmão mais velho C. Subrahmanya Ayyar, recebeu o Nobel de Física de 1983.[130] O filho de sua irmã Sitalakshmi, Sivaramakrishna Chandrasekhar, foi físico da matéria condensada.

Raman formou ao longo da vida uma extensa coleção pessoal de pedras, minérios e outros materiais com propriedades ópticas que lhe interessavam, obtidos em viagens e como presentes.[131] Frequentemente carregava um pequeno espectroscópio portátil para examinar amostras.[132] Esses objetos e seu espectrógrafo estão expostos no Instituto Indiano de Ciências.[133][134]

Ernest Rutherford esteve envolvido em alguns momentos da carreira de Raman. Indicou-o ao Nobel de Física de 1930, entregou-lhe a Medalha Hughes naquele ano como presidente da Royal Society e recomendou-o para a direção do Instituto Indiano de Ciências em 1932.[12]

Raman tinha uma forte fixação pelo Nobel. Em um discurso na Universidade de Calcutá, afirmou: "Não me sinto lisonjeado pela honra [a eleição para a Royal Society em 1924] que me fizeram. Isso é uma pequena realização. Se há algo a que aspiro, é o Prêmio Nobel. Vocês verão que o receberei em cinco anos".[135] Sabia que, se recebesse o Nobel, não poderia esperar o anúncio do comitê, feito perto do fim do ano, devido ao tempo necessário para chegar à Suécia de navio.[136] Convicto, reservou em julho de 1930 duas passagens de navio para Estocolmo, uma para ele e outra para a esposa.[137] Pouco depois de receber o prêmio, perguntaram-lhe em uma entrevista o que teria acontecido se tivesse descoberto o efeito Raman antes. Respondeu: "Então eu teria dividido o Prêmio Nobel com Compton e não teria gostado disso. Prefiro receber o prêmio inteiro".[138]

Posições religiosas

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Embora raramente falasse sobre religião, Raman era abertamente agnóstico,[139] mas rejeitava ser chamado de ateu.[22] Seu agnosticismo recebeu forte influência do pai, que seguia as ideias de Herbert Spencer, Charles Bradlaugh e Robert G. Ingersoll.[140] Raman rejeitava rituais tradicionais do hinduísmo[141] mas continuava a praticá-los em família.[142][143] Também recebeu influência da filosofia Advaita Vedanta.[144] O pagri, turbante indiano, com um tufo de cabelo por baixo, e o upanayana, cordão sagrado hindu, faziam parte de seu vestuário habitual. Embora turbantes não fossem costumeiros no sul da Índia, Raman explicava: "Se eu não usasse um, minha cabeça incharia. Vocês todos me elogiam tanto que preciso de um turbante para conter meu ego".[25] Ele também atribuiu ao turbante o reconhecimento que recebeu na primeira visita à Inglaterra, em especial de J. J. Thomson e Lord Rutherford.[43] Em um discurso público, afirmou:

"Não há Céu, não há Swarga, não há Inferno, não há renascimento, não há reencarnação e não há imortalidade. A única coisa verdadeira é que um homem nasce, vive e morre. Por isso, deve viver corretamente."[145]

Em uma conversa amistosa com Mahatma Gandhi e o zoólogo alemão Gilbert Rahm, o assunto voltou-se para a religião. Raman disse:

"Responderei à sua pergunta [de Rahm]. Se existe um Deus, devemos procurá-lo no Universo. Se ele não estiver lá, não vale a pena procurá-lo... As descobertas crescentes da astronomia e da física parecem ser revelações cada vez maiores de Deus."[22]

No leito de morte, disse à esposa: "Acredito apenas no Espírito do Homem", e pediu em relação ao funeral: "Apenas uma cremação limpa e simples para mim, sem bobagens, por favor".[141]

No fim de outubro de 1970, Raman sofreu uma parada cardíaca e desmaiou em seu laboratório. Foi levado ao hospital, onde os médicos avaliaram que não sobreviveria por mais quatro horas.[146] Sobreviveu por mais alguns dias e pediu para permanecer nos jardins de seu instituto, cercado por alunos e admiradores.[147]

Dois dias antes de morrer, disse a um antigo aluno: "Não permita que os periódicos da Academia morram, pois eles são indicadores sensíveis da qualidade da ciência que está sendo feita no país e de se a ciência está ou não criando raízes nele".[43] Naquela noite, reuniu-se em seu quarto com o conselho administrativo do instituto para discutir o futuro da gestão.[147] Também pediu à esposa que, após sua morte, providenciasse uma cremação simples, sem rituais. Morreu de causas naturais na manhã de 21 de novembro de 1970, aos 82 anos.[146]

Após a notícia da morte de Raman, a primeira-ministra Indira Gandhi declarou:

"O país, a Câmara [do Parlamento] e cada um de nós lamentará a morte do Dr. C. V. Raman. Ele foi o maior cientista da Índia moderna e um dos maiores intelectos produzidos por nosso país em sua longa história. Sua mente era como o diamante que ele estudou e explicou. O trabalho de sua vida consistiu em lançar luz sobre a natureza da luz, e o mundo o homenageou de muitas maneiras pelo novo conhecimento que trouxe à ciência."[148]

Controvérsias

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Prêmio Nobel

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Descoberta independente

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Em 1928, Grigory Landsberg e Leonid Mandelstam, da Universidade Estatal de Moscou, descobriram de forma independente o efeito Raman. Publicaram seus resultados na edição de julho da Naturwissenschaften[149] e apresentaram o trabalho no Sexto Congresso da Associação Russa de Físicos, realizado em Saratov entre 5 e 16 de agosto.[150] Em 1930, os dois foram indicados ao Nobel ao lado de Raman. O Comitê Nobel concluiu, porém, que os russos não haviam chegado a uma interpretação independente, pois citaram o artigo de Raman. Também considerou que eles haviam observado o efeito apenas em cristais, enquanto Raman e Krishnan o haviam detectado em sólidos, líquidos e gases, demonstrando sua ocorrência geral. O comitê citou ainda os trabalhos sobre a intensidade das linhas Raman e infravermelhas, a aplicação do método em diferentes áreas da física molecular e seu uso no estudo da simetria das moléculas e do spin nuclear.[151]

O Comitê Nobel apresentou apenas o nome de Raman à Academia Real das Ciências da Suécia.[151] Posteriormente surgiram evidências de que os russos haviam observado o fenômeno uma semana antes de Raman e Krishnan.[152] Uma carta de Mandelstam a Orest Khvolson informa que a linha espectral russa foi observada em 21 de fevereiro de 1928.[153]

Papel de Krishnan

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Krishnan não foi indicado ao Nobel, embora tenha sido o principal pesquisador nos experimentos que levaram à descoberta do efeito Raman.[86] Foi ele quem primeiro observou o novo espalhamento.[63] Krishnan foi coautor de todos os artigos científicos de 1928 sobre a descoberta, exceto dois, e escreveu sozinho todos os estudos de acompanhamento.[154][155][156] O próprio Krishnan nunca afirmou que merecia o prêmio.[157] Raman admitiu posteriormente que Krishnan era o codescobridor.[86] Apesar disso, manteve uma relação abertamente hostil com ele, algo que Krishnan chamou de "a maior tragédia da minha vida".[157] Depois da morte de Krishnan, Raman disse a um jornalista do The Times of India: "Krishnan foi o maior charlatão que conheci, e durante toda a vida se disfarçou com o manto da descoberta de outro homem".[158]

Controvérsia Raman-Born

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Entre outubro de 1933 e março de 1934, Max Born trabalhou no Instituto Indiano de Ciências como professor de física teórica, após um convite feito por Raman no início de 1933.[159] Born era então refugiado da Alemanha Nazista e trabalhava temporariamente no St John's College, em Cambridge.[160] Desde o início do século XX, Born vinha desenvolvendo uma teoria da dinâmica de rede baseada nas propriedades térmicas dos cristais.[161] Apresentou a teoria em uma palestra no instituto. Raman havia desenvolvido uma teoria diferente e afirmou que a de Born contradizia os dados experimentais.[159] A controvérsia prosseguiu por décadas.[162][163]

Born recebeu apoio da maioria dos físicos,[164] e sua teoria demonstrou explicar melhor os resultados.[159] A teoria de Raman passou a ser vista como parcialmente aplicável.[165] A disputa ultrapassou a discussão científica e atingiu as relações pessoais. Born disse mais tarde que Raman provavelmente o considerava um "inimigo".[159] Mesmo diante do aumento das evidências favoráveis a Born, Raman não cedeu. Como editor do Current Science, rejeitou artigos favoráveis à teoria de Born.[166] Born foi indicado repetidas vezes ao Nobel por seus trabalhos sobre dinâmica de rede e recebeu o prêmio em 1954 por seus trabalhos estatísticos em mecânica quântica. Esse episódio recebeu o nome de "Nobel tardio".[167]

Autoridades indianas

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Raman tinha forte aversão ao primeiro-ministro Jawaharlal Nehru e às políticas científicas de seu governo. Em uma ocasião, jogou no chão um busto de Nehru. Em outra, quebrou com um martelo sua medalha do Bharat Ratna, concedida pelo governo de Nehru.[168][169] Também ridicularizou Nehru em público quando este visitou o Raman Research Institute em 1948. Foi mostrado ao primeiro-ministro um pedaço de ouro e outro de cobre sob luz ultravioleta, e Nehru foi levado a acreditar que o cobre, que brilhava mais intensamente, era ouro. Raman respondeu: "Sr. primeiro-ministro, nem tudo que reluz é ouro".[170]

Na mesma ocasião, Nehru ofereceu ajuda financeira ao instituto. Raman recusou: "Certamente não quero que isto se torne mais um laboratório do governo".[146] Raman se opunha especialmente ao controle estatal dos programas de pesquisa, entre eles a criação do Bhabha Atomic Research Centre, da Defence Research and Development Organisation e do Council of Scientific and Industrial Research.[166][171] Manteve relações hostis com pessoas ligadas a essas instituições, entre elas Homi J. Bhabha, S. S. Bhatnagar e seu antigo aluno Krishnan. Chegou a chamar esses programas de "efeito Nehru-Bhatnagar".[172][173][174] Em 1959, Raman propôs a criação de outro instituto de pesquisa em Madras. O governo estadual aconselhou-o a pedir recursos ao governo federal. Raman respondeu ao então ministro das Finanças e Educação de Madras, C. Subramaniam, que previa que uma proposta ao governo de Nehru "seria recebida com uma recusa". O projeto terminou ali.[171]

Raman chamava as autoridades do AICC de "um grande tamasha", drama ou espetáculo, que apenas discutia os problemas sem agir. Sobre a questão dos recursos alimentares na Índia, aconselhou o governo: "Precisamos parar de nos reproduzir como porcos e a questão se resolverá sozinha".[135]

Indian Academy of Sciences

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A Indian Academy of Sciences nasceu de conflitos em torno de uma proposta de criação de uma organização científica nacional nos moldes da Royal Society.[175] Em 1933, a Indian Science Congress Association, então a maior organização científica do país, planejava formar uma entidade nacional autorizada a aconselhar o governo sobre assuntos científicos.[176] Sir Richard Gregory, então editor da Nature, durante uma visita à Índia, sugeriu a Raman, editor do Current Science, que fosse criada uma academia indiana de ciências. Raman defendia uma composição exclusivamente indiana, enquanto a posição predominante era pela presença de britânicos. Ele declarou: "Como a ciência indiana pode prosperar sob a tutela de uma academia que tem seu próprio conselho de 30 membros, 15 deles britânicos, dos quais apenas dois ou três são qualificados o suficiente para serem seus membros?" Em 1.º de abril de 1933, convocou uma reunião separada de cientistas do sul da Índia. Ele e Subba Rao deixaram oficialmente a associação.[177]

Raman registrou a nova organização como Indian Academy of Sciences em 24 de abril.[176] O nome deveria ser provisório e substituído por Royal Society of India após a concessão de uma carta régia. O governo da Índia não a reconheceu como organização científica nacional oficial. A Indian Science Congress Association criou em 7 de janeiro de 1935 outra entidade, o National Institute of Sciences of India, que em 1970 recebeu o nome de Indian National Science Academy.[177] A nova organização foi dirigida por alguns dos principais adversários de Raman, entre eles Meghnad Saha, Bhabha, Bhatnagar e Krishnan.[175]

Instituto Indiano de Ciências

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Raman entrou em forte conflito com as autoridades do Instituto Indiano de Ciências. Foi acusado de favorecer o desenvolvimento da física em detrimento de outras áreas.[159] Seu sobrinho S. Ramaseshan, que mais tarde se tornou diretor do instituto, recordou: "Raman entrou ali como um touro numa loja de porcelana".[141] Raman queria elevar as pesquisas de física ao nível dos institutos ocidentais, mesmo que isso reduzisse recursos de outras áreas.[159] Born observou: "Raman encontrou um lugar sonolento, onde pouquíssimo trabalho era feito por pessoas extremamente bem pagas".[141] Em uma reunião do conselho, Kenneth Aston, professor do Departamento de Tecnologia Elétrica, criticou duramente Raman e a contratação de Born. Raman pretendia oferecer a Born uma cátedra permanente.[25] Aston fez ainda um ataque pessoal contra Born, chamando-o de alguém "rejeitado por seu próprio país, um renegado e, por isso, um cientista de segunda categoria, incapaz de integrar o corpo docente, muito menos de dirigir o departamento de física".[178]

Em janeiro de 1936, o conselho do instituto criou uma comissão para avaliar a gestão de Raman. Presidida por James Irvine, diretor e vice-chanceler da Universidade de St Andrews, a comissão concluiu em março que Raman havia usado recursos de forma inadequada, deslocado por completo o "centro de gravidade" para a física e que a nomeação de Born como professor de física matemática, aprovada pelo conselho em novembro de 1935, não era financeiramente viável.[159] O conselho ofereceu duas opções a Raman: deixar o instituto em 1.º de abril ou renunciar à direção e permanecer como professor de física. Se não escolhesse, seria demitido. Raman inclinou-se pela segunda opção.[179]

Royal Society

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Raman aparentemente nunca teve grande apreço por sua condição de membro da Royal Society.[135] Apresentou sua renúncia em 9 de março de 1968, e o conselho da sociedade a aceitou em 4 de abril. A razão exata não foi registrada.[180] Uma possível causa era sua objeção à designação "súditos britânicos" usada para uma das categorias de membros. Depois da Independência da Índia, a própria Royal Society teve disputas sobre a questão.[181]

Subrahmanyan Chandrasekhar relatou que o The Times de Londres publicou certa vez uma lista de membros da Royal Society que omitia Raman. Raman escreveu a Patrick Blackett, então presidente da sociedade, exigindo uma explicação, e teria ficado decepcionado com a resposta de que a instituição não tinha responsabilidade pela lista do jornal.[158] Krishnan mencionou outra possível causa: uma avaliação negativa de um manuscrito que Raman havia enviado ao Proceedings of the Royal Society. A combinação desses fatores pode ter pesado na decisão. Na carta de renúncia, Raman escreveu: "Tomei esta decisão depois de considerar cuidadosamente todas as circunstâncias do caso. Peço que minha renúncia seja aceita e meu nome retirado da lista de membros da Sociedade".[180]

Mulheres na pesquisa

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Em 1933, Kamala Sohonie candidatou-se a uma bolsa de pesquisa no Instituto Indiano de Ciências. Raman recusou sua inscrição sob o argumento de que as mulheres não eram consideradas suficientemente capazes de realizar pesquisa. Sohonie reagiu realizando um protesto de satyagraha diante do gabinete de Raman, que acabou levando-o a admiti-la, mas sob condições humilhantes.[182]

Sohonie tornou-se a primeira mulher admitida no instituto. Mais tarde, declarou: "Embora Raman fosse um grande cientista, era muito estreito de pensamento. Nunca posso esquecer a maneira como me tratou apenas porque eu era mulher. Mesmo assim, Raman não me admitiu como aluna regular. Isso foi uma grande humilhação para mim. O preconceito contra as mulheres era tão ruim naquela época. O que se pode esperar se até mesmo um laureado com o Nobel se comporta dessa maneira?"[183] Depois de um ano, outras mulheres também passaram a ser admitidas na instituição.[184]

Honrarias e prêmios

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Busto de Chandrasekhara Venkata Raman no jardim do Birla Industrial & Technological Museum

Raman recebeu doutorados honorários e foi membro de sociedades científicas. Na Índia, além de fundador e presidente da Indian Academy of Sciences,[185] foi membro da Asiatic Society de Bengala[186] e, a partir de 1943, membro fundador da Indian Association for the Cultivation of Science.[187] Em 1935, foi nomeado membro fundador do National Institute of Sciences of India, mais tarde Indian National Science Academy.[186][nota 1][nota 2] A academia, porém, ainda o relaciona como "membro falecido".[188] Também foi membro da Deutsche Akademie de Munique, da Swiss Physical Society de Zurique, da Royal Philosophical Society of Glasgow, da Royal Irish Academy, da Academia Húngara de Ciências, da Academia de Ciências da União Soviética, da Optical Society of America, como membro honorário, da Mineralogical Society of America, da Academia Romena de Ciências, da Catgut Acoustical Society of America e da Academia de Ciências da Tchecoslováquia.[189]

Em 1924, foi eleito membro da Royal Society.[4] Renunciou em 1968 por razões não registradas, tornando-se o único indiano membro da instituição a fazê-lo.[190]

Foi presidente da 16.ª sessão do Indian Science Congress, em 1929, e fundador e presidente da Indian Academy of Sciences de 1933 até sua morte.[93] Em 1961, tornou-se membro da Pontifícia Academia das Ciências.[189]

Reconhecimento póstumo e referências posteriores

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Participantes de uma caminhada científica em comemoração ao Dia Nacional da Ciência de 2024 no Rajabazar Science College
Selo indiano de 1971 com C. V. Raman
  • A Índia celebra o Dia Nacional da Ciência em 28 de fevereiro de cada ano em memória da descoberta do efeito Raman em 1928.[196]
  • Selos postais com a imagem de Raman foram emitidos em 1971 e 2009.[197]
  • Uma rua de Nova Deli chama-se C. V. Raman Marg.[198]
  • Uma região no leste de Bangalore chama-se CV Raman Nagar.[199]
  • A rua ao norte do complexo nacional de seminários de Bangalore chama-se C. V. Raman Road.[200]
  • Uma rua em Mylapore, Chennai, chama-se CV Raman Road.
  • Um edifício do Instituto Indiano de Ciências em Bangalore chama-se Raman Building.[201]
  • Um hospital no leste de Bangalore, na 80 Ft. Rd., chama-se Sir C. V. Raman Hospital.[202]
  • Existe também uma área chamada CV Raman Nagar em Tiruchirappalli, sua cidade natal.
  • Raman, uma cratera lunar, recebeu seu nome.
  • A C. V. Raman Global University foi criada em 1997.
  • Em 1998, a American Chemical Society e a Indian Association for the Cultivation of Science reconheceram a descoberta de Raman como um International Historic Chemical Landmark na sede da associação em Jadavpur, Calcutá. A placa comemorativa diz:

"Neste instituto, Sir C. V. Raman descobriu em 1928 que, quando um feixe de luz colorida entrava em um líquido, uma fração da luz espalhada pelo líquido tinha cor diferente. Raman mostrou que a natureza dessa luz espalhada dependia do tipo de amostra presente. Outros cientistas compreenderam rapidamente o valor do fenômeno como ferramenta analítica e de pesquisa e chamaram-no de efeito Raman. O método tornou-se ainda mais útil com o advento dos computadores e lasers modernos. Seus usos vão da identificação não destrutiva de minerais à detecção precoce de doenças que ameaçam a vida. Por sua descoberta, Raman recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1930."[35]

  • A Dr. C. V. Raman University foi criada em Chhattisgarh em 2006.
  • Em 7 de novembro de 2013, um Google Doodle homenageou Raman no 125.º aniversário de seu nascimento.[203][204][205]
  • O Raman Science Centre de Nagpur recebeu o nome de Raman.[206]
  • A Dr. C. V. Raman University, Bihar, foi criada em 2018.
  • A Dr. C. V. Raman University, Khandwa, foi criada em 2018.
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  • C. V. Raman: The Scientist and His Legacy, cinebiografia sobre Raman dirigida por Nandan Kudhyadi e lançada em 1989. O filme recebeu o National Film Award de melhor filme biográfico.[207]
  • Beyond Rainbows: The Quest & Achievement of Dr. C. V. Raman, documentário sobre o físico dirigido por Ananya Banerjee, foi exibido pela Doordarshan, emissora pública nacional da Índia, em 2004.[208]
  • Rocket Boys, série biográfica indiana em língua hindi exibida pela SonyLIV, apresenta Raman interpretado por T. M. Karthik.[209]

Ver também

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  1. ↑ Antes de 1970, a Indian National Science Academy chamava-se "National Institute of Sciences of India", e seus membros usavam o pós-nominal "FNI". O pós-nominal tornou-se "FNA" em 1970, quando a associação adotou o nome atual.
  2. ↑ Embora eleito membro em 1935, Raman não concluiu os procedimentos formais necessários para ser considerado membro ativo, e sua filiação expirou."National Institute of Sciences of India: Annual Report". Indian National Science Academy, 1936. Consultado em 5 de março de 2022. Arquivado em 16 de junho de 2022.

Referências

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Bibliografia adicional

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Ligações externas

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