Prémio Nobel de Fisiologia ou Medicina
| Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina | |
|---|---|
Medalha de ouro com o perfil de Alfred Nobel | |
| Descrição | Descobertas em fisiologia ou medicina que beneficiam a humanidade |
| Organização | Assembleia Nobel do Instituto Karolinska |
| Local | Estocolmo |
| País | Suécia |
| Primeira cerimônia | 1901 |
| Última cerimônia | 2025 |
| Detentor atual | Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel, laureados de 2026[1] |
| Destaques | |
| Valor em 2026 | 12 milhões de coroas suecas[2] |
| Página oficial | |
O Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina[nota 1] é concedido anualmente pela Assembleia Nobel do Instituto Karolinska, na Suécia, por descobertas em fisiologia ou medicina. Integra os cinco prêmios Nobel previstos no testamento de Alfred Nobel, de 1895, para premiar trabalhos que proporcionassem o maior benefício à humanidade. As outras categorias são física, química, literatura e paz. O prêmio de ciências econômicas em memória de Alfred Nobel foi criado em 1968 pelo Banco Central da Suécia.[3][4][5]
A primeira edição, em 1901, premiou o fisiologista alemão Emil von Behring, por seu trabalho com soros contra a difteria. Gerty Cori foi a primeira mulher a recebê-lo, em 1947, por pesquisas sobre o metabolismo do glicogênio, que esclareceram como o organismo armazena e utiliza a glicose.[6][7]
Até 2026, foram concedidos 117 prêmios a 235 laureados, dos quais 221 eram homens e 14 eram mulheres.[8] O prêmio de 2026 foi anunciado em 5 de outubro para o norte-americano Karl Deisseroth e os alemães Peter Hegemann e Georg Nagel, por descobertas sobre proteínas sensíveis à luz que permitiram desenvolver a optogenética, técnica usada para controlar a atividade de células com luz.[1][9]
A entrega ocorre em Estocolmo, em 10 de dezembro, aniversário da morte de Nobel, e cada laureado recebe uma medalha de ouro, um diploma e um certificado referente à quantia em dinheiro. O anverso da medalha traz o perfil de Alfred Nobel, também usado nas medalhas de física, química e literatura, enquanto o desenho do reverso é próprio da categoria de fisiologia ou medicina.[10][11][12]
A premiação de António Egas Moniz pela lobotomia, em 1949, provocou críticas médicas, e a de Selman Waksman pela estreptomicina, em 1952, foi acompanhada de uma disputa judicial com Albert Schatz sobre a autoria da descoberta.[13][14] As regras limitam cada prêmio a três pessoas e proíbem a escolha deliberada de laureados já falecidos, restrições que geram debates sobre como premiar descobertas feitas em equipes.[15][16][17]
Origem
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Nascido em 21 de outubro de 1833, em Estocolmo, em uma família de engenheiros, Alfred Nobel trabalhou como químico, engenheiro e inventor.[18] Registrou 355 patentes, entre elas a da dinamite, com a qual acumulou uma fortuna,[19][20] e montou laboratórios na França e na Itália para realizar experiências com transfusões de sangue. Acompanhava as descobertas científicas, financiava o laboratório de Ivan Pavlov na Rússia e esperava que as pesquisas experimentais melhorassem as condições de vida.[21]
Quando seu irmão Ludvig morreu, em 1888, um jornal francês publicou por engano um obituário de Alfred Nobel com o título "O mercador da morte está morto". A leitura do texto o levou a pensar em como seria lembrado e a modificar seu testamento.[22] A versão final destinou sua fortuna a prêmios para trabalhos em física, química, fisiologia ou medicina, literatura e paz que trouxessem "o maior benefício à humanidade".[23] Nobel redigiu esse testamento pouco mais de um ano antes de morrer, em 1896, aos 63 anos.[24] A execução de suas disposições enfrentou contestações, e em 26 de abril de 1897 o Storting, parlamento norueguês, aceitou a tarefa que lhe cabia na organização do prêmio da paz.[25][26]
A Fundação Nobel foi criada depois de sua morte para administrar os bens destinados aos prêmios,[27] e seus estatutos foram promulgados pelo rei sueco Óscar II em 1900.[28][29] O testamento entregou ao Instituto Karolinska, instituição sueca de ensino e pesquisa médica, a escolha dos laureados em fisiologia ou medicina.[30] A categoria também recebe o nome abreviado de Nobel de Medicina.[31]
Indicação e seleção
[editar | editar código]A exigência de premiar uma descoberta que trouxesse benefícios à humanidade orienta a seleção dos candidatos, cuja indicação cabe a pessoas convidadas pela organização.[32] Podem indicar membros de academias científicas, professores de medicina da Suécia, Dinamarca, Noruega, Islândia e Finlândia, professores de universidades e instituições de pesquisa selecionadas de outros países e antigos laureados.[33]
Até 1977, a escolha dos vencedores era feita pelo conjunto de professores do Instituto Karolinska. Mudanças na legislação sueca exigiriam a abertura dos documentos da premiação ao público, o que levou à criação de um órgão independente para manter o sigilo das deliberações. A Assembleia Nobel, formada por 50 professores do instituto, assumiu a escolha dos laureados em 1978. Ela elege um Comitê Nobel de cinco membros que avaliam as candidaturas, um secretário responsável pela organização do trabalho e dez membros auxiliares por ano para examinar as pesquisas.[15][34] Desde 1968, cada prêmio pode ser dividido entre, no máximo, três pessoas.[15]
O comitê tem dado preferência a descobertas de pesquisa básica em relação a trabalhos de ciências aplicadas, e entre os candidatos que não receberam o prêmio estão o neurocirurgião norte-americano Harvey Cushing, que estudou a síndrome de Cushing, e Sigmund Freud. No caso de Freud, os avaliadores questionaram a possibilidade de comprovar experimentalmente as hipóteses da psicanálise.[35] Embora houvesse expectativa de que Jonas Salk ou Albert Sabin fossem premiados pelo desenvolvimento das vacinas contra a poliomielite, a escolha recaiu sobre John Enders, Thomas Weller e Frederick Robbins, pelas experiências de cultivo do vírus em laboratório que permitiram desenvolver as vacinas.[17]
A fisiologia clássica recebeu prêmios com frequência até a década de 1930, quando suas pesquisas começaram a se dividir em especialidades. John Eccles, Alan Hodgkin e Andrew Huxley, laureados em 1963 por descobertas sobre os fenômenos elétricos no sistema nervoso central e no sistema nervoso periférico, foram os últimos premiados nesse campo tradicional.[36]
Premiação
[editar | editar código]Os laureados recebem uma medalha de ouro, um diploma com a justificativa da escolha e uma quantia em dinheiro durante a cerimônia na Sala de Concertos de Estocolmo.[10]
Medalhas
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A medalha desenhada por Erik Lindberg tem, no anverso, um retrato de Alfred Nobel de perfil voltado para a esquerda.[11] No reverso, uma figura feminina que personifica a medicina segura um livro aberto no colo e recolhe água que sai de uma rocha para matar a sede de uma menina doente.[12] A inscrição latina "Inventas vitam iuvat excoluisse per artes", traduzida como "É benéfico melhorar a vida humana pelas artes descobertas", adapta o verso "inventas aut qui vitam excoluere per artes", do livro VI da Eneida, de Virgílio, verso 663.[12] O nome do laureado fica em uma placa abaixo das figuras, junto da inscrição "REG. UNIVERSITAS MED. CHIR. CAROL.", referente ao Instituto Karolinska.[12]
Entre 1902 e 2010, as medalhas foram cunhadas pela Myntverket, a casa da moeda sueca, em Eskilstuna. A Det Norske Myntverket, em Kongsberg, produziu as medalhas de 2011, e a Svenska Medalj, de Eskilstuna, passou a fabricá-las em 2012.[11]
Diplomas
[editar | editar código]Cada diploma é entregue pelo rei da Suécia e preparado especialmente para seu destinatário pela instituição responsável pelo prêmio. Na categoria de fisiologia ou medicina, a Assembleia Nobel do Instituto Karolinska encomenda o trabalho a artistas e calígrafos suecos.[37] O diploma reúne uma ilustração, o nome do laureado e um texto que explica a razão da escolha.[37]
Valor em dinheiro
[editar | editar código]O certificado entregue na cerimônia informa o valor do prêmio, que muda de um ano para outro em função dos recursos disponíveis na Fundação Nobel. Em 2009, a quantia foi de 10 milhões de coroas suecas, cerca de 1,4 milhão de dólares,[38] e em 2012 caiu para 8 milhões de coroas suecas, cerca de 1,1 milhão de dólares.[39] O valor de 2026 foi fixado em 12 milhões de coroas suecas, divididos igualmente entre os três laureados.[1]
A divisão entre duas pessoas reserva metade do dinheiro a cada uma, enquanto, com três laureados, a distribuição pode ser em partes iguais ou reservar metade para uma pessoa e um quarto para cada uma das outras.[40][41][42][43]
Cerimônia e banquete
[editar | editar código]A cerimônia de entrega é seguida de um banquete cujo cardápio é preparado com meses de antecedência e mantido em segredo até o dia do evento.[44] A Fundação Nobel escolhe os pratos depois de degustar propostas de chefs convidados. O jantar passou dos seis pratos da edição de 1901 para três, e cada laureado pode levar até 16 convidados. A família real sueca participa do evento, junto do primeiro-ministro, de integrantes do governo e de representantes da família Nobel.[45]
Laureados
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O fisiologista alemão Emil Adolf von Behring recebeu o primeiro prêmio, em 1901,[46] por desenvolver a soroterapia, especialmente sua aplicação contra a difteria. Seus estudos sobre o uso de soros também alcançaram o tétano. Na justificativa da escolha, a organização afirmou que o trabalho havia colocado "nas mãos do médico uma arma vitoriosa contra a doença e a morte".[47][48] O prêmio de 1902 foi para Ronald Ross, pelas descobertas sobre a transmissão da malária por mosquitos que permitiram desenvolver meios de prevenção.[49] Ross trabalhou no combate à doença em diferentes países.[50][51]
Niels Ryberg Finsen, nascido nas Ilhas Faroé, recebeu o prêmio de 1903 pelo tratamento de doenças com radiação luminosa concentrada, especialmente o lupus vulgaris.[52][53] Foi o primeiro laureado das ilhas e morreu aos 43 anos, menos de um ano depois da premiação.[54] Ivan Pavlov, cujo trabalho Nobel havia financiado, foi premiado em 1904 pelas pesquisas sobre a fisiologia da digestão.[55]

A escolha de Nikolaas Tinbergen, Konrad Lorenz e Karl von Frisch, em 1973, estendeu a premiação ao estudo do comportamento animal, um campo das ciências do comportamento.[31] Em sua conferência do Nobel, Tinbergen expressou surpresa com a decisão de entregar o prêmio de fisiologia ou medicina a três homens que, pouco antes, eram vistos como "meros observadores de animais".[57]

Pesquisas sobre a transmissão de sinais dentro das células por proteínas G, a neurobiologia e as reações químicas do metabolismo estão entre os trabalhos premiados.[58][59] De 1901 a 2026, a categoria somou 117 prêmios e 235 laureados.[60][8]
As 14 mulheres premiadas até 2026 foram Gerty Cori, em 1947, Rosalyn Yalow, em 1977, Barbara McClintock, em 1983, Rita Levi-Montalcini, em 1986, Gertrude B. Elion, em 1988, Christiane Nüsslein-Volhard, em 1995, Linda B. Buck, em 2004, Françoise Barré-Sinoussi, em 2008, Elizabeth H. Blackburn e Carol W. Greider, em 2009, May-Britt Moser, em 2014, Tu Youyou, em 2015, Katalin Karikó, em 2023, e Mary E. Brunkow, em 2025.[61][8] McClintock foi a única a receber o prêmio sem dividi-lo com outros laureados, pela descoberta de elementos genéticos que podem mudar de posição nos cromossomos, chamados transposons.[62][63]
O prêmio de Gerty Cori foi concedido por pesquisas sobre a conversão do glicogênio, molécula usada pelo organismo para armazenar glicose. As pesquisas esclareceram como o corpo armazena e utiliza açúcar e foram usadas no desenvolvimento de tratamentos para diabetes.[7][64][65]
Mario Capecchi, Martin Evans e Oliver Smithies receberam o prêmio de 2007 por desenvolver técnicas de modificação direcionada de genes em camundongos. O procedimento utiliza células-tronco embrionárias e recombinação homóloga, um mecanismo de troca entre sequências semelhantes de DNA, para alterar genes específicos e criar camundongos knockout, nos quais um gene é inativado.[66][67] Em 2009, Elizabeth Blackburn, Carol Greider e Jack Szostak, pesquisadores nos Estados Unidos, foram premiados por esclarecer como os telômeros, trechos repetidos de DNA nas extremidades dos cromossomos, e a enzima telomerase protegem essas estruturas.[68]
Victor Ambros e Gary Ruvkun receberam o prêmio de 2024 pela descoberta do microRNA e de seu papel no controle da atividade dos genes.[69]
Karl Deisseroth, Peter Hegemann e Georg Nagel receberam o prêmio de 2026 por descobertas sobre canais iônicos ativados pela luz e pela optogenética. Esses canais são proteínas que permitem a passagem de partículas eletricamente carregadas pela membrana celular quando recebem luz, tornando possível controlar a atividade de células, como os neurônios.[1]
A neurologista italiana Rita Levi-Montalcini, que dividiu o prêmio de 1986 com Stanley Cohen por descobrir o fator de crescimento nervoso, foi a primeira pessoa laureada com um Nobel a completar cem anos.[70][71]
Até 2026, o prêmio havia sido entregue a uma única pessoa em 40 edições, dividido entre duas em 36 e entre três em 41.[8]
Intervalo entre a descoberta e a premiação
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Barbara McClintock estudou a mobilidade de elementos genéticos na década de 1940, antes que a estrutura do DNA fosse esclarecida, e recebeu o Nobel em 1983. O intervalo entre a descoberta e a premiação permitiu confirmar os resultados de suas pesquisas. Peyton Rous publicou em 1911 a descoberta de um vírus capaz de provocar tumores em galinhas e foi premiado em 1966.[72][73][74] Carol Greider recebeu o prêmio mais de vinte anos depois das pesquisas que o motivaram e afirmou que a espera pode favorecer a avaliação de descobertas médicas, cujas consequências às vezes levam anos para se tornar claras.[75]
Quando o imunologista canadense Ralph Steinman foi escolhido em 2011, os responsáveis pela decisão desconheciam que ele havia morrido três dias antes do anúncio. A Fundação Nobel manteve o prêmio por entender que a escolha fora feita de boa-fé, na suposição de que Steinman estivesse vivo.[16][76]
Inclusões e exclusões controversas
[editar | editar código]O prêmio de 1923 pela descoberta da insulina, hormônio que regula a quantidade de açúcar no sangue e permite o tratamento da diabetes, foi concedido a Frederick Banting e John Macleod.[77] Banting contestou a escolha de Macleod, chefe de seu departamento na Universidade de Toronto, por avaliar que sua participação nas experiências havia sido pequena. Defendia que o colega de laboratório Charles Best recebesse o prêmio e lhe deu metade de sua parcela do dinheiro. Macleod dividiu a sua com o bioquímico James Collip, que havia entrado na equipe depois das primeiras experiências.[77]
A prioridade da descoberta também foi reivindicada para Nicolae Paulescu, professor romeno da Universidade de Medicina e Farmácia de Bucareste, que obteve em 1916 um extrato pancreático capaz de reduzir a glicose no sangue. Sua pancreína era um extrato aquoso impuro, inadequado para uso em pessoas, semelhante ao preparado antes por Israel Kleiner.[78][79][80] Banting e Best publicaram seu trabalho em 1922.[81] Em 10 de abril de 1922, Paulescu obteve do Ministério da Indústria e Comércio da Romênia a patente n.º 6254, também numerada 8322, para "Pancreina şi procedeul fabricaţiei ei", ou "Pancreína e seu processo de fabricação".[82][83][84]
O neurofisiologista espanhol Fernando de Castro, que viveu de 1896 a 1967 e foi aluno de Santiago Ramón y Cajal, foi o primeiro a localizar, entre 1926 e 1928, os quimiorreceptores arteriais no corpo carotídeo. Essas células detectam mudanças na composição química do sangue e participam do controle da respiração. Suas pesquisas precederam os trabalhos pelos quais Corneille Heymans recebeu o Nobel de 1938.[85] Em uma visita a Montevidéu em 1948, Heymans afirmou que deveria ter dividido o prêmio com Castro.[86] A Guerra Civil Espanhola dificultou suas pesquisas, mas ele não foi indicado ao Nobel nesses anos.[87][nota 2]

O neurologista português António Egas Moniz recebeu o prêmio de 1949 pela leucotomia pré-frontal, apesar de críticas médicas ao procedimento. Moniz anunciava resultados favoráveis apenas dez dias depois das operações, e a divulgação do prêmio ampliou o uso da cirurgia sem os cuidados exigidos pela ética médica. Publicações como The New York Times noticiaram resultados favoráveis, e estima-se que cerca de 40 mil lobotomias tenham sido realizadas nos Estados Unidos antes de o procedimento cair em desuso.[88] Rosemary Kennedy, irmã de John F. Kennedy, passou pela operação por decisão de seu pai, Joseph P. Kennedy, e ficou incapacitada, necessitando de cuidados em uma instituição pelo resto da vida.[13][89]
A escolha de Selman Waksman como único laureado de 1952 pela descoberta da estreptomicina deixou de fora Albert Schatz, que participou da descoberta do antibiótico.[14][90] Schatz processou Waksman por questões de autoria e crédito e recebeu uma indenização. O acordo estabeleceu seu reconhecimento como codescobridor da estreptomicina para fins de direitos de patente, mas ele não recebeu o Nobel.[14]
O prêmio de 1962 foi dividido entre James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins pelos estudos sobre a estrutura e as propriedades do DNA, deixando de fora colaboradores como Alec Stokes e Herbert Wilson. Os trabalhos de Erwin Chargaff, Oswald Avery e Rosalind Franklin também permitiram esclarecer a estrutura da molécula. As imagens de difração de raios X e as medições de Franklin foram usadas na construção do modelo da dupla hélice.[91] Avery morreu em 1955 e Franklin em 1958, antes da premiação, e as regras não permitem indicar pessoas já falecidas. Franklin não recebeu indicações enquanto viveu.[92]
A maneira como Watson apresentou Franklin e sua participação na descoberta em The Double Helix recebeu críticas, e sua exclusão passou a ser discutida como um caso de sexismo na ciência.[93][94] Chargaff manifestou a outros cientistas sua insatisfação por não receber o prêmio e sua desilusão com os rumos da biologia molecular.[95]
O prêmio de 2008 foi dividido entre Harald zur Hausen, pelas descobertas sobre a relação entre o papilomavírus humano, ou HPV, e o câncer do colo do útero, e Françoise Barré-Sinoussi e Luc Montagnier, pela descoberta do vírus da imunodeficiência humana, ou HIV.[96] A escolha deixou de fora Robert Gallo, cuja participação na descoberta do HIV havia sido motivo de disputa com Montagnier.[97][98]
O patrocínio da Nobel Media e da Nobel Web pela AstraZeneca, que recebia receitas de patentes usadas em vacinas contra o HPV, e as relações profissionais de duas pessoas envolvidas na escolha dos laureados com a empresa motivaram uma investigação sobre possíveis conflitos de interesses na premiação de zur Hausen.[99][100] A investigação não resultou em acusações formais.[101]
Limite de laureados
[editar | editar código]A limitação do prêmio a três pessoas, estabelecida em 1968, gerou debates porque descobertas realizadas em equipes maiores não permitem premiar todos os participantes.[15][102] Entre 1901 e 1950, 59 pessoas receberam o Nobel de Fisiologia ou Medicina, e entre 1951 e 2000 foram 113. A expansão da comunidade científica depois da Segunda Guerra Mundial e o crescimento das pesquisas em equipe ampliaram a participação de pesquisadores em uma mesma descoberta.[17] Com o limite de três nomes, trabalhos realizados por grupos maiores exigem a seleção de parte dos participantes, e propostas que premiariam mais de três pessoas não podem ser aceitas.[72] A restrição pode deixar pesquisadores fora das indicações e alimentar disputas sobre quem deve receber o crédito pelo trabalho.[32]
Anos sem premiação
[editar | editar código]O prêmio não foi concedido em nove anos, de 1915 a 1918, em 1921 e 1925 e de 1940 a 1942. A maioria dessas interrupções ocorreu durante a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918, ou a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945.[70][8] Em 1939, o governo da Alemanha Nazista proibiu Gerhard Domagk de aceitar o prêmio.[103] Ele recebeu o diploma e a medalha depois da guerra, mas perdeu o direito ao dinheiro.[70][104]
Ver também
[editar | editar código]- Laureados com o Nobel de Fisiologia ou Medicina, lista dos premiados nesta categoria
- Prêmio Nobel, origem e organização das premiações
- Fisiologia, estudo do funcionamento dos organismos
- História da medicina, pesquisas e tratamentos desenvolvidos na medicina
- Instituto Karolinska, instituição responsável pela escolha dos laureados
Notas
- ↑ Em sueco, Nobelpriset i fysiologi eller medicin.
- ↑ A história de que membros do comitê teriam questionado se Castro ainda estava vivo durante a guerra é apresentada como uma lenda no estudo de Fernando de Castro de 2009. O mesmo trabalho informa que não houve indicação formal do pesquisador nesses anos.[87]
Referências
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Bibliografia
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Leitura adicional
[editar | editar código]- Peter Doherty (2008). The Beginner's Guide to Winning the Nobel Prize: Advice for Young Scientists. [S.l.]: Columbia University Press. ISBN 978-0-231-13897-0
- Francis Leroy (2003). A century of Nobel Prizes recipients: chemistry, physics, and medicine. [S.l.]: CRC Press. ISBN 978-0-8247-0876-4
- David Rifkind; Geraldine L. Freeman (2005). The Nobel Prize winning discoveries in infectious diseases. [S.l.]: Academic Press. ISBN 978-0-12-369353-2
- José Eymard Homem Pittella (2018). «O banco de dados do Prêmio Nobel como indicador da internacionalização da ciência brasileira entre 1901 e 1966». História, Ciências, Saúde – Manguinhos. 25 (2): 569–590. Consultado em 11 de outubro de 2026
- Ricardo Zorzetto (2 de outubro de 2023). «Dupla que tornou as vacinas de mRNA possíveis recebe o Nobel de Medicina». Pesquisa FAPESP. Consultado em 11 de outubro de 2026
- Ricardo Zorzetto (7 de outubro de 2024). «Nobel de Medicina vai para os descobridores do microRNA». Pesquisa FAPESP. Consultado em 11 de outubro de 2026
- Maria Guimarães (novembro de 2025). «Nobel de 2025 laureia ciência básica, que depois pode dar origem a inovações». Pesquisa FAPESP. Consultado em 11 de outubro de 2026
- «As experiências de um Nobel». Pesquisa FAPESP (46). Setembro de 1999. Consultado em 11 de outubro de 2026
Ligações externas
[editar | editar código]- Lista de laureados em fisiologia ou medicina, da Fundação Nobel, em inglês
- Site oficial da Fundação Nobel, em inglês
- Gráficos da distribuição dos prêmios de medicina entre 1901 e 2009 por nacionalidade e por país de nascimento, de Jürgen Schmidhuber, com apresentação do método e artigo científico, em inglês
- Prémio Nobel, na Infopédia, em português
- Carlos Chagas e suas indicações ao Nobel, no portal da Fundação Oswaldo Cruz, em português
- Premiação de medicina de 2026, na Agência Brasil, em português
- Do controle dos neurônios à Grécia reimaginada, na Pesquisa FAPESP, em português
- Bactérias, humanos e história(s) da vida: o caso da Helicobacter pylori, na Casa de Oswaldo Cruz, em português
