Tábua de esmeralda

texto escrito por Hermes Trimegisto de onde se originou a Alquimia
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 Nota: Este artigo é sobre o texto de Hermes Trismegisto. Para álbum musical de Jorge Ben, veja A Tábua de Esmeralda.

A Tábua de Esmeralda (em latim: Tabula Smaragdina) é um texto breve e de caráter pseudoepigráfico, tradicionalmente atribuído à figura mítica de Hermes Trismegisto. Considerada um dos pilares fundacionais do hermetismo e da alquimia ocidental, a obra sintetiza os princípios da filosofia hermética no que tange à unidade do cosmos e à correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo, sendo mundialmente célebre pela máxima: "O que está embaixo é como o que está em cima".[1]

Tábua de Esmeralda
Tabula Smaragdina
Edição do texto em latim por Chrysogonus Polydorus (Nuremberga, 1541).
Autor(es)Atribuído a Hermes Trismegisto (autoria real desconhecida)
IdiomaÁrabe (textos mais antigos), Latim
AssuntoAlquimia, Hermetismo, Esoterismo
GéneroTratado filosófico / Opúsculo

Embora a tradição medieval e renascentista sustentasse que o texto remontava ao Antigo Egito, as evidências históricas e filológicas modernas demonstram que sua origem documentada é medieval, provindo originalmente do mundo árabo-islâmico.[2]

História e origem textual

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Apesar de sua intrínseca associação com a tradição helenística, o texto sobrevivente mais antigo conhecido da Tábua de Esmeralda aparece em obras redigidas em árabe entre os séculos VIII e IX da nossa era.[3]

A versão mais remota já identificada encontra-se no Kitab Sirr al-Khaliqa wa Sanat al-Tabia (O Livro do Segredo da Criação e a Arte da Natureza), um compêndio atribuído a Balinas (Pseudo-Apolônio de Tiana), compilado por volta do ano 800 d.C.[1] O opúsculo também foi incorporado ao Kitab Sirr al-Asrar (O Livro do Segredo dos Segredos), um vasto tratado enciclopédico que seria traduzido para o latim no século XII sob o título Secretum Secretorum, alcançando colossal circulação e influência na Europa medieval.

A primeira tradução do árabe para o latim foi executada por Hugo de Santalla no início do século XII. Contudo, foi a versão latina inserida no Secretum Secretorum (frequentemente associada ao trabalho de tradução de João de Sevilha) e o influente comentário posterior atribuído ao alquimista Hortulano (século XIV) que consagraram o texto no Ocidente sob a nomenclatura clássica de Tabula Smaragdina.[4]

O texto (Tabula Smaragdina)

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Versão em latim

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O texto latino fixado na tradição alquímica europeia apresenta-se estruturado em quinze sentenças numeradas:

(1) Verum sine mendacio, certum et verissimum:
(2) Quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius, ad perpetranda miracula rei unius.
(3) Et sicut omnes res fuerunt ab Uno, mediatione unius, sic omnes res natæ fuerunt ab hac una re, adaptatione.
(4) Pater ejus est Sol, mater ejus Luna; portavit illud Ventus in ventre suo; nutrix ejus Terra est.
(5) Pater omnis Telesmi totius mundi est hic.
(6) Vis ejus integra est, si versa fuerit in Terram.
(7) Separabis terram ab igne, subtile a spisso, suaviter, cum magno ingenio.
(8) Ascendit a terra in cœlum, iterumque descendit in terram et recipit vim superiorum et inferiorum.
(9) Sic habebis gloriam totius mundi.
(10) Ideo fugiet a te omnis obscuritas.
(11) Hic est totius fortitudinis fortitudo fortis: quia vincet omnem rem subtilem omnemque solidam penetrabit.
(12) Sic mundus creatus est.
(13) Hinc erunt adaptationes mirabiles quarum modus est hic.
(14) Itaque vocatus sum Hermes Trismegistus, habens tres partes philosophiæ totius mundi.
(15) Completum est quod dixi de Operatione Solis.
Ilustração alegórica da Tábua de Esmeralda na obra Amphitheatrum sapientiae aeternae de Heinrich Khunrath (1606).

Tradução em português

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(1) É verdade, sem mentira, certo e mui verdadeiro:
(2) O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo, para realizar os milagres de uma única coisa.
(3) E assim como todas as coisas vieram do Um, pela mediação do Um, assim todas as coisas nasceram desta única coisa, por adaptação.
(4) O Sol é o seu pai, a Lua é a sua mãe; o vento o carregou em seu ventre; a Terra é a sua nutridora.
(5) O pai de toda a Telesma (perfeição/força) de todo o mundo está aqui.
(6) A sua força é inteira se for convertida em Terra.
(7) Separarás a Terra do Fogo, o sutil do denso, suavemente e com grande engenho.
(8) Sobe da Terra para o Céu e desce novamente à Terra, e recebe a força das coisas superiores e inferiores.
(9) Desse modo obterás a glória de todo o mundo.
(10) E por isso se afastará de ti toda a escuridão.
(11) Esta é a força forte de toda força, pois vencerá todas as coisas sutis e penetrará em tudo o que é sólido.
(12) Assim o mundo foi criado.
(13) Disto hão de vir adaptações admiráveis, cujo modo é este.
(14) Por esta razão fui chamado de Hermes Trismegisto, pois possuo as três partes da filosofia de todo o mundo.
(15) O que eu disse sobre a Operação do Sol está completo.

Traduções célebres e manuscritos

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Ao longo dos séculos, o texto foi traduzido e exaustivamente comentado por intelectuais de inegável relevância histórica. Durante o Renascimento, a tradução do Corpus Hermeticum para o latim pelo filósofo florentino Marsílio Ficino impulsionou uma profunda renovação do interesse pela Tábua de Esmeralda nas cortes europeias.

No século XVII, o proeminente físico e matemático inglês Isaac Newton, que dedicou vasta parcela de sua vida à investigação teológica e alquímica, elaborou sua própria tradução do opúsculo a partir do latim. O manuscrito original de Newton, atualmente preservado nos arquivos do King's College, em Cambridge, evidencia uma leitura de cunho estritamente laboratorial, em que os processos herméticos são interpretados como chaves para a manipulação de substâncias químicas e a compreensão das forças fundamentais da matéria.[5]

Posteriormente, no século XIX, a ocultista russa Helena Blavatsky, fundadora da Teosofia, também traduziu e publicou comentários sobre o texto em sua obra magna Ísis sem Véu, adaptando os preceitos da Tábua ao seu sistema de espiritualidade esotérica e sincrética.

Influência e interpretação

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Na alquimia e a Grande Obra

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Para os praticantes da alquimia clássica, as injunções da Tábua de Esmeralda não se restringiam a meras alegorias filosóficas, constituindo-se, antes, em uma fórmula cifrada para a consecução da Grande Obra (Magnum Opus) e a subsequente síntese da Pedra Filosofal. Diretrizes como "separar o sutil do denso" eram decodificadas como instruções literais para operações de destilação, calcinação e purificação da matéria bruta nos laboratórios, ao passo que a "Operação do Sol" era um eufemismo para o enobrecimento dos metais em ouro e a sublimação da própria energia vital do artífice.[4]

Na psicologia analítica

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No decurso do século XX, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung promoveu um resgate sistemático dos textos alquímicos, reexaminando a Tábua de Esmeralda sob as lentes da psicologia analítica. Jung postulou que as imagens e processos descritos no texto funcionavam como uma complexa alegoria estrutural para o processo de individuação humana. Sob o prisma junguiano, as polaridades expressas na Tábua (o que está em cima e o que está embaixo, o sutil e o denso) simbolizam as instâncias do consciente e do inconsciente. A unificação dialética desses elementos, visando "realizar os milagres de uma única coisa", corresponderia psicologicamente à integração da psique fragmentada e à realização plena do Self (o Si-mesmo).[6]

Referências

  1. 1 2 Lawrence M. Principe (2013). The Secrets of Alchemy. [S.l.]: University of Chicago Press. pp. 31–33
  2. ↑ Faivre, Antoine. The Eternal Hermes: From Greek God to Alchemical Magus. Phanes Press, 1995.
  3. ↑ Holmyard, Eric J. Alchemy. Courier Corporation, 1990, p. 95-97.
  4. 1 2 Stanton J. Linden (2003). The Alchemy Reader: From Hermes Trismegistus to Isaac Newton. [S.l.]: Cambridge University Press. pp. 27–28
  5. ↑ Dobbs, Betty Jo Teeter. The Foundations of Newton's Alchemy. Cambridge University Press, 1983.
  6. ↑ Jung, Carl Gustav. Psicologia e Alquimia (Obras Completas, Vol. 12). Editora Vozes, 2012.

Bibliografia

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  • Dobbs, Betty Jo Teeter (1983). The Foundations of Newton's Alchemy (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press 
  • Faivre, Antoine (1995). The Eternal Hermes: From Greek God to Alchemical Magus (em inglês). [S.l.]: Phanes Press 
  • Holmyard, Eric J. (1990). Alchemy (em inglês). [S.l.]: Courier Corporation. ISBN 978-0486262987 
  • Jung, Carl Gustav (2012). Psicologia e Alquimia. Col: Obras Completas, Vol. 12. [S.l.]: Editora Vozes. ISBN 978-8532642732 Verifique |isbn= (ajuda) 
  • Linden, Stanton J. (2003). The Alchemy Reader: From Hermes Trismegistus to Isaac Newton (em inglês). [S.l.]: Cambridge University Press. ISBN 978-0521796620 
  • Principe, Lawrence M. (2013). The Secrets of Alchemy (em inglês). [S.l.]: University of Chicago Press. ISBN 978-0226682952