História Natural (Plínio)
| História Natural | |
|---|---|
| 'Naturalis historia' História Natural | |
Página de rosto de uma edição da História Natural impressa nos Países Baixos em 1669 | |
| Autor(es) | Plínio, o Velho |
| Idioma | Latim |
| País | Império Romano |
| Assunto | História natural, geografia, medicina, história da arte |
| Gênero | Enciclopédia |
| Lançamento | 77 d.C. (dedicatória) |
A História Natural (em latim: Naturalis historia) é uma obra em latim do escritor romano Plínio, o Velho, dividida em 37 livros, que reúne informação sobre o mundo e sobre os usos que os homens fazem dele: descrição física do mundo, geografia, antropologia, zoologia, botânica, remédios, mineralogia e artes.[1] É a única obra de Plínio que chegou aos nossos dias.[2] Plínio dedicou-a ao futuro imperador Tito em 77 d.C. e, segundo o filólogo John Edwin Sandys, publicou ele próprio os dez primeiros livros nesse ano; ainda revia os restantes quando morreu durante a erupção do Vesúvio, em 79 d.C., e o sobrinho, Plínio, o Jovem, terá publicado a obra com pouca ou nenhuma revisão.[1]
No prefácio, Plínio afirma ter reunido 20 mil factos dignos de atenção a partir da leitura de cerca de 2 mil volumes de cem autores escolhidos.[3] A obra costuma ser classificada como enciclopédia, mas há estudiosos, como o brasileiro Thiago David Stadler, que a leem como obra de história.[2] Resumida e copiada desde a Antiguidade tardia, foi impressa em Veneza em 1469 e estudada pelos humanistas do Renascimento, entre eles o português Martim de Figueiredo, que publicou em Lisboa, em 1529, um comentário ao prefácio.[4][5][6][7]
Composição
[editar | editar código]Plínio conciliou o estudo com uma carreira ao serviço do imperador Vespasiano. Numa carta em que enumera as obras do tio, Plínio, o Jovem, conta que ele começava a estudar alta noite, ia ter com Vespasiano antes do amanhecer e, depois de cumprir o seu cargo, dedicava ao estudo o tempo que lhe sobrava. Mandava ler-lhe livros durante as refeições e enquanto tomava sol, e não lia nada sem fazer excertos, porque dizia que não havia livro tão mau que não tivesse alguma parte útil.[8] Na mesma carta, o sobrinho descreve a História Natural como uma obra «extensa, erudita e não menos variada do que a própria natureza» (opus diffusum eruditum, nec minus varium quam ipsa natura).[9] O próprio Plínio escreve no prefácio que tratava destes assuntos nas horas vagas, isto é, à noite, porque dava os dias ao serviço do imperador.[10]
O prefácio é uma carta a Tito, filho de Vespasiano, com quem Plínio convivera nos acampamentos militares. Plínio enumera os títulos do destinatário e trata-o por imperator, antecipando, segundo Stadler, a aclamação de Tito, que só sucederia ao pai depois da publicação da obra.[11][2] Plínio define aí o seu tema como «a natureza das coisas, isto é, a vida» (rerum natura, hoc est vita) e afirma que nenhum romano tentara o mesmo e que nenhum grego tratara sozinho de todos esses assuntos.[12]
As listas de autoridades que se conservaram citam mais de 400 autores, 146 romanos e 327 gregos e de outras origens. A principal fonte de Plínio é Varrão. Na geografia, Plínio completa-o com os comentários topográficos de Agripa; na zoologia, segue sobretudo Aristóteles e o rei Juba II da Mauritânia, que é também o seu principal guia na botânica, onde cita ainda Teofrasto.[1] A latinista Ana Thereza Basílio Vieira observa que Plínio cita as autoridades apenas pelo nome, quase nunca pela obra,[13] e que, quando Plínio diz ter lido um autor, é muito provável que o conheça por citação noutra obra.[14]
Conteúdo
[editar | editar código]Na forma atual, a obra tem 37 livros. O primeiro contém o prefácio, o sumário de cada livro e as listas de autoridades, que originalmente precediam cada livro.[1] Plínio explica no prefácio que juntou o sumário para poupar tempo a Tito: assim, cada leitor procuraria apenas o que desejasse e saberia onde o encontrar.[15] Os restantes livros distribuem-se assim:[1]
- II: descrição matemática e física do mundo;
- III–VI: geografia e etnografia;
- VII: antropologia e fisiologia humana;
- VIII–XI: zoologia;
- XII–XXVII: botânica, incluindo agricultura, horticultura e matéria médica;
- XXVIII–XXXII: zoologia médica, isto é, remédios tirados dos animais;
- XXXIII–XXXVII: mineralogia, sobretudo nas suas aplicações à vida e à arte, incluindo a cinzelagem em prata (XXXIII, 154–157), a estatuária em bronze (XXXIV), a pintura (XXXV, 15–149), a modelagem (XXXV, 151–158) e a escultura em mármore (XXXVI).
Para Vieira, a obra cataloga e exalta as conquistas romanas e nasce da curiosidade do autor. Ao descrever os animais, Plínio atende a critérios constantes: como foram conhecidos, onde vivem, o seu aspeto e tamanho, os seus hábitos e a sua utilidade para os romanos. As espécies exóticas, trazidas das regiões periféricas do império e exibidas em espetáculos, recebem atenção especial.[16] Nos livros sobre os animais, a principal fonte é Aristóteles,[17] mas Plínio alarga bastante o número de espécies conhecidas, sobretudo de mamíferos e de peixes.[13] A mesma autora considera a História Natural a fonte mais completa para a história da medicina entre os romanos.[18]
Os capítulos sobre arte dos livros XXXIV a XXXVI são o único relato antigo da história da arte que se conservou. Assentam, em última análise, em obras perdidas de autores gregos como Xenócrates de Sicião, Dúris de Samos e Antígono de Caristo.[4] No livro XXXVI, Plínio menciona o Grupo de Laocoonte, que estava na casa do imperador Tito, atribui-o aos escultores ródios Hagesandro, Polidoro e Atenodoro e afirma que deve ser preferido a todas as obras de pintura e de estatuária.[19][4]
Amostra do texto
[editar | editar código]A abertura do livro XII marca a passagem dos animais para as plantas:[20]
Assim se apresentam, por géneros e por partes, as naturezas de todos os animais que foi possível conhecer. Resta tratar das coisas que a terra produz e das que dela se extraem, também elas não desprovidas de alma, pois nada vive sem ela, para que nenhuma obra da natureza seja passada em silêncio. Durante muito tempo as dádivas da terra estiveram ocultas, e as árvores e os bosques eram tidos pelo maior presente dado ao homem. Deles veio o primeiro alimento; com a sua folhagem tornou-se mais confortável a caverna, e com a sua casca fez-se o vestuário. Por isso causa cada vez mais admiração que, a partir de tais princípios, se cortem montanhas para obter mármores, se vá buscar vestes aos Seres, a pérola às profundezas do mar Vermelho e a esmeralda ao fundo da terra. Para isso se inventaram as feridas nas orelhas, decerto porque era pouco trazer as joias ao pescoço, nos cabelos e nas mãos, se não se cravassem também no corpo. Convém, portanto, seguir a ordem da vida, tratar das árvores antes de tudo o mais e pôr diante dos nossos costumes as suas origens.
Animalium omnium quae nosci potuere naturae generatim membratimque ita se habent. restat ut neque ipsa anima carentia — quandoquidem nihil sine ea vivit —, terra edita et inde eruta, dicantur ac nullum sileatur rerum naturae opus. diu fuere occulta eius beneficia, summumque munusque homini datum arbores silvaeque intellegebantur. hinc primum alimenta, harum fronde mollior specus, libro vestis. quo magis ac magis admirari subit his a principiis caedi montes in marmora, vestes ad Seras peti, unionem in Rubri maris profunda, zmaragdum in ima tellure quaeri. ad hoc excogitata sunt aurium vulnera, nimirum quoniam parum erat collo, crinibus, manibus gestari, nisi infoderentur etiam corpori. quam ob rem sequi par est ordinem vitae et arbores ante alia dicere ac moribus primordia ingerere nostris.
— Plínio, o Velho, História Natural, XII, 1–2 (em latim)
Transmissão e edições
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A falta de uma revisão final do autor pode explicar, segundo Sandys, muitas repetições e algumas contradições, erros em passagens tiradas de autores gregos e notas marginais inseridas no lugar errado do texto.[1]
A obra foi lida e resumida desde a Antiguidade tardia. Em meados do século III, Solino fez um resumo das partes geográficas, e no início do século IV as passagens médicas foram reunidas na Medicina Plinii. No início do século VIII, Beda possuía um excelente manuscrito da obra completa; no século IX, Alcuíno pediu a Carlos Magno uma cópia dos primeiros livros, e Dicuil tirou dela excertos para a sua Mensura orbis terrae (c. 825 d.C.). Roberto de Cricklade, prior de Santa Frideswide, em Oxford, dedicou a Henrique II de Inglaterra uma Defloratio em nove livros de seleções. Sandys contava, em 1911, cerca de 200 manuscritos conservados.[4]
A História Natural foi impressa em Veneza em 1469 por Johannes de Spira.[6] Seguiram-se as edições de Ermolao Barbaro (Roma, 1492), de Gronovius (Leiden, 1669) e de Hardouin (Paris, 1685), entre outras, e, a partir de meados do século XIX, as de L. von Jan (Leipzig, 1854–1865), D. Detlefsen (Berlim, 1866–1873) e Mayhoff (Leipzig, a partir de 1906).[4]
Receção
[editar | editar código]Humanismo e Portugal
[editar | editar código]Na última década do século XV, o humanista florentino Angelo Poliziano dedicou grande atenção ao texto de Plínio.[5] Aos seus ensinamentos terá recorrido, pelo menos, o jurista português Martim de Figueiredo, professor na universidade de Lisboa.[21] Segundo as cartas dedicatórias, o seu comentário resultou de pedidos de estudiosos portugueses a quem ensinara a História Natural e reuniu apontamentos trazidos de Itália e matéria dessas aulas.[22] O Commentum in Plinii Naturalis Historiae Prologum, dedicado a D. João III, foi impresso em Lisboa por Germão Galharde a 13 de junho de 1529 e comenta apenas o prefácio.[5][7] A importância do livro divide os estudiosos. Joaquim de Carvalho incluiu-o entre os três primeiros livros impressos em Portugal que anunciam o humanismo, e José V. de Pina Martins viu nele um símbolo do humanismo português;[23][21] Américo da Costa Ramalho, pelo contrário, considerou-o um comentário modesto, feito ao nível dos alunos, sobre um texto já desatualizado quando foi impresso.[21]
Crítica moderna
[editar | editar código]Muitos comentadores modernos censuraram Plínio por não ter superado o seu modelo, Aristóteles, nem apresentado uma classificação mais metódica dos animais. Vieira, apoiada em Bodson, responde que essas críticas ignoram as intenções do autor e o papel da obra na divulgação do saber zoológico desde o século I.[17] Stadler propõe ainda que a obra, recebida durante séculos como um depósito de informações e crenças desconexas, seja lida como pertencente ao género da história na Antiguidade e não ao das enciclopédias.[2]
Traduções
[editar | editar código]Philemon Holland publicou em Londres, em 1601, uma tradução inglesa, e Émile Littré, em 1855, uma tradução francesa.[4] Em 1855 saiu também a tradução inglesa de John Bostock e H. T. Riley.[24]
Entre as traduções para português de partes da obra contam-se:
- a edição bilingue das passagens sobre a Lusitânia, com comentário, publicada por Amílcar Guerra em 1995;[25]
- a seleção de passagens do livro XXXV traduzida por Antonio da Silveira Mendonça em 1996;[26]
- a tradução do prefácio, segundo o texto editado por Martim de Figueiredo, incluída por Maria José Lopes num estudo de 1996 sobre o Commentum;[27]
- a tradução completa dos livros XXXIV a XXXVI, sobre as artes, apresentada por Ana Carolina Aquarolli Martins em dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo em 2023.[28]
Referências
- 1 2 3 4 5 6 Sandys (1911), p. 842.
- 1 2 3 4 Stadler (2021), p. 10.
- ↑ Plínio, o Velho, História Natural, prefácio, 17.
- 1 2 3 4 5 6 Sandys (1911), p. 843.
- 1 2 3 Cunha (2020), p. 51.
- 1 2 «Plinius Secundus, Gaius: Historia naturalis». Incunabula Short Title Catalogue (em inglês). British Library; Consortium of European Research Libraries. Consultado em 11 de outubro de 2026
- 1 2 Cunha (2020), p. 60.
- ↑ Plínio, o Jovem, Cartas, III, 5, 8–10.
- ↑ Plínio, o Jovem, Cartas, III, 5, 6.
- ↑ Plínio, o Velho, História Natural, prefácio, 18.
- ↑ Plínio, o Velho, História Natural, prefácio, 1–3.
- ↑ Plínio, o Velho, História Natural, prefácio, 13–14.
- 1 2 Vieira (2017), p. 93.
- ↑ Vieira (2019), p. 42.
- ↑ Plínio, o Velho, História Natural, prefácio, 33.
- ↑ Vieira (2017), p. 91.
- 1 2 Vieira (2017), p. 92.
- ↑ Vieira (2019), p. 41.
- ↑ Plínio, o Velho, História Natural, XXXVI, 37.
- ↑ Texto latino em «C. Plini Secundi Naturalis Historiae Liber XII». LacusCurtius (em latim). Universidade de Chicago. Consultado em 11 de outubro de 2026
- 1 2 3 Cunha (2020), p. 52.
- ↑ Cunha (2020), p. 43.
- ↑ Cunha (2020), p. 16.
- ↑ «Pliny the Elder, The Natural History». Perseus Digital Library (em inglês). Tradução de John Bostock e H. T. Riley. Universidade Tufts. Consultado em 11 de outubro de 2026
- ↑ Nunes (1996), pp. 234–237.
- ↑ Martins (2023), p. 10.
- ↑ Cunha (2020), p. 16, nota 5.
- ↑ Martins (2023), resumo.
Bibliografia
[editar | editar código]Fontes primárias
[editar | editar código]- Plínio, o Velho.
Naturalis historia no Wikisource em latim. - Plínio, o Velho. «Naturalis Historia». LacusCurtius. Universidade de Chicago. Consultado em 11 de outubro de 2026
- Plínio, o Jovem. «Epistularum liber tertius». The Latin Library (em latim). Consultado em 11 de outubro de 2026
Estudos
[editar | editar código]- Cunha, Catarina Viegas (2020). Martim de Figueiredo e os Studia Humanitatis na corte portuguesa: o Commentum Plinii (Tese de Mestrado em Estudos Clássicos). Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
- Guerra, Amílcar (1995). Plínio-o-Velho e a Lusitânia. Col: Arqueologia & História Antiga, 1. Lisboa: Colibri; Faculdade de Letras de Lisboa
- Martins, Ana Carolina Aquarolli (2023). Plínio, o Velho, e a genealogia das artes (Tese de Mestrado em Letras Clássicas). São Paulo: Universidade de São Paulo. doi:10.11606/D.8.2023.tde-06102023-123615
- Mendonça, Antonio da Silveira (1996). «Seleção e tradução da Naturalis Historia de Plínio, o Velho». Revista de História da Arte e Arqueologia (2): 317–330
- Nascimento, Aires A., ed. (2007). Os clássicos no tempo: Plínio, o Velho, e o Humanismo Português. Lisboa: Centro de Estudos Clássicos. ISBN 978-972-9376-13-9
- Nunes, Margarida I. (1996). «[Recensão a] Guerra, Amílcar, Plínio-o-Velho e a Lusitânia». Conimbriga. 35: 234–237. doi:10.14195/1647-8657_35_16
- Oliveira, Francisco de (1986). Ideias morais e políticas em Plínio, o Antigo. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
- Sandys, John Edwin (1911). «Pliny the Elder». Encyclopædia Britannica (em inglês). 21 11.ª ed. Cambridge: Cambridge University Press. pp. 841–844
- Stadler, Thiago David (2021). Plínio, o Velho: nos caminhos da História Natural (PDF). Campo Mourão: Editora Fecilcam
- Vieira, Ana Thereza Basilio (2017). «A exposição dos animais na obra de Plínio o velho: exotismo e monstruosidade na Naturalis Historia». Classica – Revista Brasileira de Estudos Clássicos. 30 (2): 91–109. doi:10.24277/classica.v30i2.434
- Vieira, Ana Thereza (2019). «Reflexões sobre a recepção da medicina na obra de Plínio o velho». Rónai – Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios. 7 (1): 41–50. doi:10.34019/2318-3446.2019.v7.23284
Ligações externas
[editar | editar código]- Tradução inglesa de Philemon Holland (1601; livros 1–3 e 7–13), na Universidade de Chicago
- Tradução inglesa de John Bostock e H. T. Riley (1855), na Perseus Digital Library
- Tradução francesa, no sítio L'Antiquité grecque et latine
