Coprofilia
Coprofilia é um interesse sexual associado às fezes. Pode envolver excitação sexual relacionada à observação, ao cheiro ou à manipulação de fezes, incluindo fantasias sobre essas atividades. A coprofagia, que designa a ingestão de fezes, pode ocorrer como uma manifestação da coprofilia, embora os dois termos não sejam sinônimos.[1]
Na classificação psiquiátrica, um interesse parafílico não implica, por si só, um transtorno mental. A distinção entre parafilia e transtorno parafílico considera a presença de sofrimento, prejuízo funcional ou dano ou risco de dano a outras pessoas.[2]
Terminologia
[editar | editar código]O termo é formado pelo elemento grego kópros, que significa excremento ou fezes, e pelo sufixo -filia.[3] Também pode designar uma preocupação com fezes ou com objetos e palavras que as representam. A associação entre esse interesse e uma fixação na fase anal pertence à teoria psicanalítica clássica, e não constitui uma conclusão clínica contemporânea.[4]
Coprofagia e coprofilia podem ocorrer juntas, mas descrevem aspectos diferentes. Coprofagia se refere ao comportamento de ingerir fezes, que também aparece na literatura médica em contextos não sexuais.[5] Esse comportamento foi registrado em alguns pacientes com coprofilia.[1]
Em ambientes digitais, o termo também pode abranger redes informais de produção e consumo de mídia, vocabulário próprio e relações sociais entre pessoas interessadas no fetiche.[6]
Classificação clínica
[editar | editar código]O DSM-5 diferencia uma parafilia de um transtorno parafílico. Essa distinção separa o interesse sexual do sofrimento ou prejuízo associado a ele e considera também situações que envolvam dano ou falta de consentimento.[7]
A maioria das pessoas com interesses sexuais atípicos não apresenta transtorno mental. O sofrimento pessoal relacionado ao interesse é distinto daquele causado apenas pela desaprovação social.[8]
A avaliação inclui desejos ou comportamentos que envolvam dano a outras pessoas ou pessoas que não consintam ou não possam consentir. A coprofilia e a coprofagia aparecem, em contexto clínico, entre os exemplos de interesses classificados como outros transtornos parafílicos especificados.[8][1]
Pesquisa
[editar | editar código]Um estudo clínico sobre o tema foi publicado em 1955 no British Journal of Medical Psychology.[9]
A literatura publicada entre 1990 e 2022 inclui relatos de caso e poucos estudos sobre coprofilia e coprofagia. Os tratamentos descritos combinaram, em alguns casos, medicamentos e psicoterapia, com resultados variados. Permanecem necessárias novas pesquisas sobre fatores associados, tratamento e resultados clínicos.[1]
Saúde
[editar | editar código]Infecções entéricas
[editar | editar código]Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) descrevem a transmissão de agentes infecciosos intestinais em atividades sexuais com exposição fecal, incluindo o contato oral-anal. Entre os agentes citados estão Shigella, Campylobacter, Salmonella, Escherichia coli e Giardia lamblia.[10]
A shigelose pode ser transmitida quando material fecal de uma pessoa infectada alcança a boca, inclusive por meio de dedos ou objetos contaminados. A bactéria pode permanecer nas fezes por até duas semanas após o desaparecimento da diarreia, e sua presença na pele não pode ser identificada apenas pela aparência.[11]
As diretrizes também descrevem proctocolite e enterite, que podem incluir diarreia e cólicas abdominais. Em sua terminologia de vigilância, a expressão “homens que fazem sexo com homens” descreve comportamento sexual e não determina a identidade sexual das pessoas.[10][11]
Prevenção
[editar | editar código]Entre as medidas de prevenção estão evitar o contato com fezes durante a atividade sexual, utilizar barreiras e higienizar as mãos depois do contato com a região anal ou com materiais contaminados. Essas medidas são recomendações gerais de controle de infecções, diante da ausência de intervenções específicas para todos os agentes entéricos.[10]
Para reduzir a transmissão de Shigella, recomenda-se lavar brinquedos sexuais depois de cada uso e evitar relações durante episódios de diarreia, aguardando pelo menos duas semanas após seu término.[11]
A hepatite A também pode ser transmitida durante a atividade sexual. A vacinação é uma medida de prevenção, e homens que fazem sexo com homens estão entre os grupos para os quais a vacina é recomendada.[12]
Ver também
[editar | editar código]Referências
- 1 2 3 4 Arnone, Jacqueline M.; Conti, Richard P.; Preckajlo, Joseph H. (2024). “Coprophilia and Coprophagia: A Literature Review”. Journal of the American Psychiatric Nurses Association, 30(1), pp. 8–16. Publicado online em 4 de dezembro de 2023. DOI: https://doi.org/10.1177/10783903231214265. PMID: 38050323. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38050323/
- ↑ American Psychological Association (15 de novembro de 2023). “Paraphilia”. APA Dictionary of Psychology. https://dictionary.apa.org/paraphilia. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ Priberam. “Coprofilia”. Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. https://dicionario.priberam.org/coprofilia. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ American Psychological Association (19 de abril de 2018). “Coprophilia”. APA Dictionary of Psychology. https://dictionary.apa.org/coprophilia. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ Istituto della Enciclopedia Italiana (2010). “Coprofagia”. Dizionario di Medicina. https://www.treccani.it/enciclopedia/coprofagia_(Dizionario-di-Medicina)/. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ “What Is Gay Scat Culture? A Guide to the Fetish, Community and Its Online History”. Scat Gay, 23 de setembro de 2026. https://scatgay.com/blog/what-is-gay-scat-culture-a-guide-to-the-fetish-community-and-its-online-history. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ Beech, Anthony R.; Miner, Michael H.; Thornton, David (2016). “Paraphilias in the DSM-5”. Annual Review of Clinical Psychology, 12, pp. 383–406. DOI: https://doi.org/10.1146/annurev-clinpsy-021815-093330. PMID: 26772210. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26772210/
- 1 2 American Psychiatric Association (2013). Paraphilic Disorders. Material explicativo sobre o DSM-5, pp. 1–2. https://www.psychiatry.org/File%20Library/Psychiatrists/Practice/DSM/APA_DSM-5-Paraphilic-Disorders.pdf. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ Xavier, Cedric M. (1955). “Coprophilia—A Clinical Study”. British Journal of Medical Psychology, 28(2–3), pp. 188–190. DOI: https://doi.org/10.1111/j.2044-8341.1955.tb00893.x. PMID: 14389628. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/14389628/
- 1 2 3 Centers for Disease Control and Prevention (2021). “Proctitis, Proctocolitis, and Enteritis”. Sexually Transmitted Infections Treatment Guidelines. https://www.cdc.gov/std/treatment-guidelines/proctitis.htm. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- 1 2 3 Centers for Disease Control and Prevention (2 de abril de 2024). “Preventing Shigella Infection Among Sexually Active People”. https://www.cdc.gov/shigella/prevention/preventing-shigella-infection-among-sexually-active-people.html. Consultado em 23 de setembro de 2026.
- ↑ Centers for Disease Control and Prevention (14 de maio de 2024). “Viral Hepatitis Among Sexually Active Adults”. https://www.cdc.gov/hepatitis/hcp/populations-settings/sexually-active.html. Consultado em 23 de setembro de 2026.